Confira a segunda parte da matéria especial sobre a afetividade da mulher negra

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Sangoma | Adaptação web: David Pereira

De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras | FOTO: Sangoma

De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras | FOTO: Sangoma

Leia a primeira parte da matéria especial sobre a afetividade da mulher negra.

Lucélia Sérigio, atriz e diretora do espetáculo “Pari Cavalos…”, acredita que a solidão não afeta apenas as mulheres negras e pobres, mas é uma constante entre mulheres cuja formação intelectual e cultural é acima da média. Além disso, temos muitos estereótipos sexuais, temos mulheres que precisam ser fortes para não sucumbirem e isso também é um problema no amor. Não somos o ideal de beleza, não estamos em bons empregos para ajudar o companheiro a crescer, somos duras demais, ou cultas de menos, entre muitas outras coisas. Não estamos nem nas novelas! Uma negra bonita é vista como exceção para a maioria dos brasileiros, culta e inteligente, mãe de família e companheira, então... Damos barraco, somos gostosas e cozinhamos bem, é pra isso que servimos. Nossa luta é conquistar alteridade, dignidade e integridade. Isso só é possível através do amor. Começa por nossas escolhas e nossos limites, mas passa por uma consciência coletiva de brancos, pretos, amarelos, azuis, vermelhos, todos. É isso que queremos ao falar de nossos afetos e desafetos”.

Trazendo à tona questionamentos, críticas e reflexões sobre a afetividade da mulher negra, a Cia Capulanas tratou do tema avaliando o histórico da saúde e das doenças que atingem a mulher afrodescendente. “Dentro dessa construção histórica, não temos o direito de ser frágil. Mesmo sendo a base da pirâmide, a mulher negra cuida de tudo. Vivemos o arquétipo da guerreira, da mulher forte, por isso implodimos e nascem os calos, tumores e miomas. Somos essa grande teta que amamenta tudo e todos, mas quem cuida da gente? Isso não significa que queremos uma relação de submissão, o que queremos é uma relação de troca. Se ninguém olha para a gente, vamos a gente se olhar. Estamos sempre com o outro, olhando para o outro, que horas nós olhamos para nós mesmas?”, completa a atriz, poetisa e arte-educadora Priscila Preta (Cia Capulanas).“A nossa afetividade vai sendo sepultada diariamente por conta das agressões cotidianas. Sempre precisamos cerrar os punhos, engolir o choro, secar as lágrimas e silenciar, sempre saímos perdendo nesta matemática da barbárie. Estamos enquadrados em recortes que falam dos nossos atributos físicos, da nossa temperatura, da nossa musicalidade, ou seja, sempre sendo objeto do outro”, reitera o ator Sidney Santiago.

Para uns, falar de amor tornou-se piegas; para outros, pensar e falar sobre afetividade e experiência do amor dentro do segmento afrofeminino ganha conotação “rancorosa” e vitimizada. Contudo, são anos de silêncio, submissão e incompreensão das relações. “Quanto mais quebramos o silêncio, mais vamos nos empoderando e mudando o que está posto historicamente”, afirma Flavia Rosa.

"Dentro dessa construção histórica, não temos o direito de ser frágil. Mesmo sendo a base da pirâmide, a mulher negra cuida de tudo. Vivemos o arquétipo da guerreira, da mulher forte, por isso implodimos e nascem os calos, tumores e miomas. Somos essa grande teta que amamenta tudo e todos, mas quem cuida da gente?" - Priscila Preta | FOTO: Sangoma

"Dentro dessa construção histórica, não temos o direito de ser frágil. Mesmo sendo a base da pirâmide, a mulher negra cuida de tudo. Vivemos o arquétipo da guerreira, da mulher forte, por isso implodimos e nascem os calos, tumores e miomas. Somos essa grande teta que amamenta tudo e todos, mas quem cuida da gente?" - Priscila Preta | FOTO: Sangoma

À medida que essa mulher se empodera e encontra histórias iguais à dela, a solidão perde a conotação de dor e passa a ser sinônimo de liberdade, ou, no caso dos espetáculos, um ato politico e curativo. “O corpo ressignifica esse processo com a autoestima. A corporalidade pode ser revista e traz uma reconstrução da autoimagem. São mulheres que têm algo em comum, mas não são todas iguais”, explica Ana Claudia Lemos Pacheco. “A saída é um empoderamento da mulher negra, lembremos que somos nós que educamos esses homens e que alguns estereótipos precisam deixar de ser reafirmados por nós, mulheres negras. É a nossa verdade, quando a mulher negra fala, incomoda e gera o inconformismo”, reitera Claudete Alves.

O que esses dois grupos debatem extrapola a dimensão sexual e erótica do estereótipo da mulher afrodescendente. “Não estamos falando de sexo, mas de saúde emocional. Uma família saudável e pessoas equilibradas é o mínimo que podemos desejar para nossa sociedade. Uma das personagens do espetáculo diria ‘imaginem só o que pode fazer uma mulher fortalecida, quando resolve reagir contra toda a opressão?’. O amor é político, nossas escolhas também. O importante é aprendermos a olhar para além desse espelho distorcido que nos afasta de nós mesmos. Não falamos de nos forçarmos a nos relacionar somente entre negros, estamos falando do porquê as mulheres negras sentem que não são amadas e muitas delas não têm companheiros, além dos filhos. Citando bell hooks, ‘a nossa cura está no ato e na arte de amar’”, afirma Lucélia Sérgio.
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