Para Hélio Santos, o futuro do Brasil passa pelas mãos da população afrodescendente.

O professor Hélio Santos é desses personagens difíceis de se começar uma entrevista pela multiplicidade de temas abordados por ele. Doutor em administração pela Universidade de São Paulo (USP), autor do livro A Busca de um Caminho para o Brasil – A trilha do Círculo Vicioso e dono de uma biografia extensa, Santos foi presidente do primeiro órgão de Estado brasileiro a propor políticas públicas para negros no pós-escravidão; foi também um dos mais jovens integrantes da Comissão Constituinte de 1988. Ativista do movimento negro, tornou-se um estudioso da questão racial. Nessa entrevista exclusiva à RAÇA, Hélio fala dos avanços, desafios e perspectivas para afrodescendentes que, neste século, já aparecem como maioria do povo brasileiro.

O senhor presidiu o primeiro órgão do Estado brasileiro no pós-abolição a tratar, especificamente, do desenvolvimento e da participação da comunidade negra. O que mudou nas políticas públicas nesses quase 30 anos?

São 28 anos de lá para cá, como você frisou bem. Das 5.600 cidades brasileiras, posso dizer que nos principais municípios, grandes e médios, onde não se tem um conselho, se tem uma assessoria ou uma coordenadoria. Isto, de certa forma, ajudou muito a mudar este panorama. A SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial) é o ápice de todo esse esforço e foi criada já no início deste século após a convenção de Durban, na África do Sul.

 

Onde o Brasil teve um papel preponderante, inclusive, com a relatoria do encontro.
Sim, mas nesses 28 anos a mudança mais substancial foi a visibilidade do fato. Não se entendia que a questão racial merecia a atenção do Estado. A invisibilidade era total. Hoje ainda há dificuldade no enfrentamento, mas naquele momento, a invisibilidade era absoluta e o tema racial não constava na agenda. O mais importante é não esquecer que isso é resultado da luta. Se nós não tivéssemos tido ativistas, homens e mulheres, que enfrentaram essa questão, não estaríamos na posição que estamos hoje. Ainda falta muito, mas avançamos e isso é resultado direto do movimento social negro.

 

O que falta para avançarmos nas políticas públicas de promoção da igualdade racial?
A Federação Brasileira é formada por 27 estados, com mais de 5.600 cidades. Em todas elas existe uma população negra que, aliás, é a maioria do conjunto do país. A secretaria que deve cuidar desta questão precisa ser especialista na transversalização de políticas, porque, além das questões específicas, há as características próprias de diversas áreas, como educação e saúde. Pensar em implementar políticas para essa população hoje significa monitorar; significa controle.

 

Como assim?
Dou um exemplo clássico: conseguimos cotas para universidades, mas sem monitoramento, o que é um tiro no pé. Temos universidades, sobretudo, no sul do Brasil, mas não conseguimos absolver nem um terço das vagas reservadas aos negros, ou seja, o controle é importante. Gerenciar estas políticas é sugeri-las, estabelecer convênios com os municípios. Essa seria uma tarefa importante da SEPPIR, mas é necessário lembrar que nós temos que produzir conhecimento.

 

Conhecimento para gerenciar essas políticas?
A gestão pública no Brasil sempre foi difícil, só há menos de uma década que ela está voltada para questões raciais. Temos que desenvolver conhecimento. O Estado brasileiro tem que investir para que nós possamos ter um modelo de política pública que gerencie essas políticas; um ministério com a missão da SEPPIR necessita de um volume de dinheiro suficiente para cuidar da questão racial.

 

O senhor sempre usa uma frase em que diz: “O racismo brasileiro é um crime perfeito.” Explique melhor isso.
É muito comum esta afirmação que eu vou fazer. Nós temos no Brasil um desrespeito à questão racial que poderíamos chamar de crime perfeito. Todos os novelistas que afirmam que não há crime perfeito não conhecem o Brasil. Porque o crime perfeito é aquele em que a vítima é, ao mesmo tempo, réu.

 

A discriminação está também diluída em outros setores, não só no político. Como enfrentar o problema?
Penso que isso tem a ver com a questão racial brasileira. Aquela história do crime perfeito que falava antes e ideia de que temos tido no Brasil um tipo do sistema de apartheid. Mas o nosso apartheid, que apesar de não ser semelhante ao da África do Sul ou dos Estados Unidos que dava posições demarcadas, é extremamente eficiente no sentido de manter o negro onde sempre ele esteve. Esse apartheid é visto nos postos das empresas nos mais diferentes cargos e também em todos os processos hierárquicos brasileiros. Então este apartheid, apesar de ser um fato, não é visível. Se a população como um todo pudesse ver isso de outra forma, evidentemente teríamos outra situação.

 

Como nos Estados Unidos, por exemplo?
Bem lembrado. Um exemplo é Atlanta, uma das maiores cidades norte-americanas que, a partir dos anos de 1970, só elegeu prefeitos negros, porque a população de Atlanta é de maioria negra, que não conseguia votar até aquela época. No momento em que a participação democrática foi liberada, a população negra não teve dúvida em quem deveria votar. Aliás, Atlanta é a cidade onde se inicia a luta pelos direitos civis no país. Resumindo, o nosso desafio maior é tornar essa magnitude populacional em poder. E poder é algo que, ou você conquista ou você não tem. Não é como cotas na universidade que nós lutamos, batalhamos e conseguimos; o poder vem de outra articulação: ele tem que ser conquistado, penso que o tamanho do nosso país, as características da política nacional são fatores que impedem um avanço nessa área.

 

O que há essencialmente de diferente no racismo brasileiro e norte-americano?
Essa pergunta é interessante. Os Estados Unidos foram durante muito tempo uma referência para o movimento negro brasileiro, mesmo sabendo que a situação lá era diferente. No Brasil temos uma população majoritariamente negra e um apartheid brando. A força do racismo aqui no Brasil está na maneira aparentemente branda em que ele se manifesta, ao passo que a fraqueza do racismo nos Estados Unidos é exatamente a força com que ele se apresentava à sociedade.

 

A eleição de Obama mudou o panorama?
De forma alguma, hoje se diz que os Estados Unidos vivem uma situação pós-racial, em que a questão já não é mais um fator relevante para a agenda pública do país, porque já eles já possuem um presidente negro. Seria a mesma tolice dizer que a mulher não tem mais nenhuma dificuldade porque temos no Brasil a presidenta Dilma Rousseff. Sabemos que não é assim. Hoje a situação se inverteu, ou seja, nesse exato momento, há uma brasilianização da questão racial nos Estados Unidos em que há miscigenação de latinos, orientais, brancos e negros.

 

O senhor hoje está à frente do conselho deliberativo do Fundo Baobá; fale um pouco desse novo desafio.
O Fundo Baobá para Equidade Racial é um centro financeiro que recebe recursos para depois utilizá-los para fins específicos para equidade racial, que está acima da igualdade. A equidade busca dar aos negros igualdade e oportunidade que historicamente nós não temos. Então é uma iniciativa pioneira e complexa porque não faz parte da cultura brasileira doar dinheiro para uma causa. As pessoas gostam de doar dinheiro para um hospital, para um asilo de velhinhos, para o projeto de uma favela, para a igreja, mas para uma causa que vai trabalhar a longo prazo, não faz parte de nossa cultura.

 

Qual é o montante que envolve este fundo?
O Fundo Baobá nasce com recursos internacionais de 25 milhões de dólares, aproximadamente 50 milhões de reais, nós temos a missão de duplicar este recurso para 100 milhões de reais: 25 milhões de dólares doados pela Fundação Kellogs e 25 milhões que temos de arrecadar em outros lugares. Estes recursos devem ser aplicados em projetos que ajudem a mudar a realidade negra no Brasil. O Baobá atua naquela área em que o movimento social não pode atuar. O Fundo Baobá é uma iniciativa da Fundação Kellogs, com ativistas do movimento negro brasileiro. É uma absoluta honra poder estar à frente com outras pessoas relevantes para o movimento negro brasileiro, trabalhando nesta ideia do fundo para a equidade racial, que tem como missão potencializar a cidadania da população negra no Brasil.

 

E seu mais recente livro, O Homem Lésbico, um título provocante, não?
Toda vez que a gente fala em parto nós homens não temos uma compreensão porque esta é uma ação das mulheres. Meu primeiro livro A Busca de um Caminho para o Brasil foi um parto de muita dor porque foram dez anos colecionando materiais publicados em jornais e revistas e, com base neste material, tentei consolidar um livro de quase 500 páginas. Foi tão difícil para eu assumir esse meu lado mulher porque eu fiquei viúvo precocemente. Nessa situação, o homem é obrigado a criar os filhos e a ter seu lado feminino mais aflorado. Esse homem que não tem medo de assumir conscientemente a mulher que todo homem tem, porque ele já existe, é um produto que já existe no século 21, não há como confundi-lo com o metrossexual, porque o metrossexual é um mauricinho que está envelhecendo. O homem lésbico é um homem que consegue superar tudo isso. O livro é a história de um personagem que tem como obsessão a felicidade da mulher que ele ama, e não é possível falar deste homem sem falar de sexualidade, sem falar de comportamento e, apesar do livro ter no título a palavra homem, na verdade o livro conta a história de doze mulheres.

 

Doze mulheres! Como o homem entra nesse contexto?
Como pano de fundo. O homem pode ser sobrinho, neto, filho ou namorado, mas a história é de doze mulheres. Foi um absoluto prazer e eu penso que a parte boa do romance é quando eu constato que o homem não tem outro futuro no mundo a não ser se tornar lésbico. É lógico que o título é uma provocação, essa palavra lésbico sequer existe. Mas ele é um homem heterossexual que gosta de mulheres, mas tem uma perspectiva feminina, ou seja, sincera e profunda. O homem historicamente não tem tido essas qualidades, a guerra é uma invenção masculina, a violência do mundo tem uma origem masculina, então assumir este lado feminino nos faz pensar na relação homem- mulher, mas se pensarmos socialmente, significa melhorar o mundo. Quando tivermos mais homens lésbicos, nós vamos ter homens que terão menos medo de mostrar a sua sensibilidade.

 

Após quase 30 anos ter presidido o conselho da comunidade negra e ter assistido todas as mudanças e avanços, como você vê o Brasil daqui a mais 30 anos?
Sou otimista, porque o Brasil vai crescer muito e será o que a população negra for. Hoje o Brasil é um país em desenvolvimento, é a sexta potência do mundo, caminhando para ser a quarta. Em 2027, segundo uma agência inglesa, o Brasil terá diante de seu potencial econômico somente três países, seguindo esta ordem: China, Estados Unidos e Índia. Ora, como um país se sustenta excluindo uma parcela significativa do seu povo? Ou seja, sou otimista, mas não quero dizer que não teremos dificuldades, porque poderemos desenvolver um Brasil de excelência, altamente desenvolvido tecnologicamente e que pode seguir excluindo o negro.

 

E como mudar essa realidade?
Penso que devemos desenvolver políticas que sejam ousadas, senão nós não quebraremos essa situação estrutural, essa realidade em que as piores moradias estão onde a população negra está, onde tem as piores oportunidades de mercado de trabalho. Inclusive participarei de uma banca de doutorado que mostra como no mercado de trabalho temos desafios a serem vencidos. As melhores empresas, onde estão os melhores empregos e cargos, mantêm a dificuldade da população negra de se inserir. Mas mesmo assim sou otimista. Teremos que ter políticas ousadas, não adianta somente abrir as universidades se simultaneamente não tivermos as melhores ofertas de trabalho. Mas me mantenho otimista, porque o Brasil será o que a população negra for.

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