Recentemente foi notícia em vários meios de comunicação a pergunta sobre uma mulher negra que sofreu ao ser questionada “Você faz faxina?”, cuja resposta foi, “Não, faço mestrado”.

Um estudo apresentado em uma grande universidade paulista analisou a “invisibilidade” do trabalhador da área de manutenção daquela instituição. A pesquisadora durante vários dias se fez passar por uma funcionária da faxina e, qual não foi sua surpresa quando seus próprios colegas de sala de aula não a cumprimentavam e não lhe dirigiam a palavra, sequer direcionavam-lhe o olhar. Ou seja, ela passou a ser totalmente “invisível” assim que mudou de roupa e de função.

 

Drama parecido, vivência diária de uma parcela significativa dos afro-brasileiros em nosso país, como um agravante: a discriminação racial. Não importa a posição social, econômica, cultural ou acadêmica: sempre prevalecerá sua “invisibilidade” e a cor da pele. Seja ele(a) um juiz, advogado, médico, empresário, engenheiro, etc., dependendo do espaço social em que está circulando, fatalmente passará pelo constrangimento da “invisibilidade“ ou, na maioria das vezes, da dupla “invisibilidade” ao ser confundido com um serviçal (sem nenhum demérito a qualquer profissional).

 

Como mudar essa situação, já que mais de cem anos se passaram da assinatura da lei Áurea e o negro em nosso país quase não ocupa outros postos além dos de serviços menos prestigiados em nosso país?

 

Somos engenheiros, arquitetos, jornalistas, juizes etc., atuantes na sociedade e na economia brasileira. Como mudar o olhar da “invisibilidade” e da discriminação? Muitos dirão, sem hesitar, que a saída passa pela educação. Sem dúvida, mas a educação de quem? Dos negros que, ao se prepararem melhor e em maior quantidade, irão começar a ocupar numericamente esses espaços? Ou de alguns brancos que precisam reaprender a conviver com essa nova realidade? Acredito que as duas alternativas impulsionariam, sim, a desobstrução da “invisibilidade “discriminatória no qual passamos de forma violenta nesse território”. Porém, há um aspecto profundo, enraizado dentro dos detentores deste espaço que precisa ser analisado mais atentamente: o aspecto cultural.

 

A cultura tem um papel preponderante na ação das pessoas, e a cultura que ainda permeia nos espaços de poder no Brasil é arcaica, colonialista, excludente e racista. Cabe ao conjunto da sociedade um esforço muito grande que vise á mudança cultural desses espaços e desses comportamentos.

 

Quando falamos em mudança de comportamento, neste início de século XXI, é impossível não citar o poder determinante dos meios de comunicação, sobretudo o da televisão. Ela hoje é a grande formadora de opinião não só dos que estão atuando cotidianamente na vida de nosso país, mas principalmente nos que construirão o futuro da nação. Fica aí a pergunta: qual tem sido o papel da televisão brasileira diante deste quadro? Historicamente, o de reproduzir a “invisibilidade” e a discriminação, tão presente nesse espaço. Mais do que isso, é a reprodução dos valores e dos estereótipos embutidos no consciente dos frequentes desse local.

 

A reprodução é automática e de formas simples: “eu escrevo, eu dirijo, eu pauto minha programação em cima daquilo que eu vejo e do jeito que eu vejo; se nos espaços que eu círculo a presença do negro é “invisível”, logo irei reproduzir essa “invisibilidade” em minha programação, seja o jornalismo que dirijo, na novela que escrevo e até mesmo no programa infantil que eu conduzo”.

 

Só existem uma saída para mudar essa mentalidade e contribuir para pôr fim a esse espaço de “invisibilidade” negra: trabalharmos cada vez mais para a inclusão de negros e negras nesses espaços decisivos, sejam eles empresariais, acadêmicos ou políticos. Caso contrário continuaremos vendo comerciais de cerveja á beira de campo da periferia brasileira com homens e mulheres dinamarqueses e nós, negros, continuaremos também ouvindo, em algumas recepções a pergunta: “Você faz faxina?”

 

Mauricio Pestana

Jornalista, publicitário, cartunista e escritor. Exerceu o cargo de Secretário de Promoção da Igualdade Racial da Cidade de São Paulo de abril de 2013 a dezembro de 2016. Atualmente é Diretor executivo da Revista Raça.

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