Família Daniel (da esquerda para direita: Vinda, Paulina, Kiala e Sissi).

Ainda em 1975, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, que veio a se tornar um dos maiores parceiros comerciais na África. Lá residem 15 mil brasileiros segundo as estimativas populacionais das comunidades brasileiras no mundo (dados atualizados em 2016). Mesmo que em função da guerra civil, tenham chegado milhares de angolanos no Brasil, nosso país, inicialmente, não os considerava como refugiados, pois havia aderido à Convenção da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), de 1951, que admitia o dispositivo da reserva geográfica, ou seja: só consideraria como refugiadas as pessoas provenientes do continente europeu. Os tempos mudaram. E a situação fora alterada. Mas vale ressaltar que nem todo(a) angolano(a) chegado ao Brasil é refugiado(a).

Em minhas andanças conhecendo o continente africano, tive a oportunidade de conviver com a família Daniel, um exemplo da diáspora angolana residente no Brasil há quase treze anos. Filhos de diplomata angolano, Vinda Daniel Afonso é administrador; Ngombo Paulina Daniel é Oficial de Comunicação e Imagens da Academia Militar do Exército do Lobito-Benguela (Angola); Sissi Massala Daniel é estudante de Psicologia; e há também o analista de negócios internacionais Kiala Gabriel Metro. Todos experimentaram o mito da democracia racial brasileira enquanto foram discriminados pela cor de pele, até que fossem descobertos estrangeiros.

A família Daniel mostrou-me não só que estávamos próximos pelos aspectos linguísticos e colonização histórica, mas também pelo fado de, em Angola, o racismo e a discriminação racial favorecerem, no momento de contratação de novo emprego, indivíduos de pele clara (laton – gíria em português que significa mulato) em detrimento dos que chamam de “pretos genuínos”. As mulheres com menos melanina também são consideradas as mais bonitas. Há angolanos -- como alguns brasileiros que não se assumem pretos -- que até utilizavam o sabonete mecacon para clarear. Talvez, por isso, ouvi dizer que, quando um bebê angolano negro de tom “claro” nasce, fruto de casamento interracial, a gestação é chamada de barriga limpa.

Em Angola, conhece-se a ancestralidade desde muito cedo. A família Daniel, por exemplo, é Bakongo, tribo que, desde a independência, preservou suas raízes, como a de utilizarem panos africanos em sua vestimenta. Surge, então, a pergunta: que força racista é essa que joga fora as riquezas culturais e tenta camuflar até mesmo o tom de pele até os dias atuais, no Brasil e em Angola?

Há um tempo, estimava-se que o pan-africanismo seria uma ferramenta de combate às intolerâncias contra o povo africano. Mas -- parece-me -- que continua uma não solução, pois, ainda que Angola tenha de certa forma superado problemas tribais, como alguns consideram, há que se fazer muito para unir a colcha de retalhos que é o continente africano.

Vamos nos aproximando das eleições gerais em Angola, data provável para agosto próximo. Pelo visto, Eduardo dos Santos, após 38 anos no poder, não se recanditará. Agora, resta-nos saber quem será o próximo presidente que conduzirá a vida dos angolanos.

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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