O colunista Oswaldo Faustino conta a história do pigmeu Ota Benga

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O livro, Ota Benga: The Pigmy In The Zoo, escrito por Phillips Verner Bradford, neto do explorador que trouxe Benga para os estados Unidos: A crueldade do racismo em seu aspecto mais vil | FOTO: Divulgação

O livro, Ota Benga: The Pigmy In The Zoo, escrito por Phillips Verner Bradford, neto do explorador que trouxe Benga para os estados Unidos: A crueldade do racismo em seu aspecto mais vil | FOTO: Divulgação

Certamente poucos brasileiros já ouviram falar em Ota Benga, um pigmeu Mbuti, do antigo Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Descrito com um jovem alegre, que a todos chamava de “Bi” (amigo, em sua língua natal). Levado por um explorador e missionário cristão, em 1904, para os Estados Unidos, se suicidou em 20 de março de 1916. Mas por que nos interessar por esse fato corrido há cerca de 100 anos? Pode alguém indagar. A resposta é que esse africano – talvez um dos primeiros casos de reality show da história da humanidade – foi humilhado e teve sua identidade triturada, na tentativa de “comprovar” falsas teses baseadas nas teorias darwinistas da evolução. A degradação da imagem de negros e negras no cotidiano da mídia e o genocídio da juventude negra, são fenômenos muito semelhantes ao ocorrido com Benga.

Contratado pelos organizadores da Feira Mundial de Saint Louis, no Missouri, montada em homenagem ao centenário da compra da Louisiania, o comerciante e missionário norte-americano Samuel Phillips Verner viajou ao Congo, em 1904, com a missão de encontrar algo “exótico” para apresentar na ala da exposição dedicada às ciências. Na volta, contou que encontrou cinco pigmeus capturados e escravizados por traficantes. A aldeia deles, próxima ao rio Kasai, foi destruida por milícias contratadas pelo rei Leopoldo II, da Bélgica e, entre os assassinados, durante os ataques, estavam a esposa e os filhos de Benga.

Há quem conte que o missionário teria conquistado a confiança de Ota com um quilo de sal e um tecido colorido, e este convenceu quatro outros pigmeus a acreditar que aquele muzungu (homem branco, na língua dos Mbuti), os levaria a terra do Tio Sam, mas os traria de volta. Verne passou na região do povo Bakuba, africanos de alta estatura e juntou ao grupo o filho do rei e outros dois membros dessa etnia. Queria compará-los para provar as teorias evolucionistas.

Ota Benga teria, nessa época, uns 23 anos; sua altura era menos de um metro e meio e pesava 47 quilos. Como era tradição entre os pigmeus, havia afilado os dentes, tornando-os pontiagudos. Sensação exótica na feira e classificados pelo jornal sensacionalista St. Louis Repúblic, como “a forma mais ínfima da evolução humana”, os demais integrantes do grupo foram repatriados, mas Verne quis manter Ota nos Estados Unidos para exibi-lo país afora. Em Nova York, o entregou à direção do Zoológico do Bronx, onde o trancaram na jaula dos macacos, com trajes sumários para esteriotipar a imagem de “selvagem”. À frente da jaula, uma placa o apresentava como “O elo perdido”. A notícia de que tinham um canibal e de que o pequeno orangotango Dohong era seu filho atraiu multidões e encheu os cofres do zoológico.

Assim como no Brasil, onde existiam, desde meados do século 19, jornais escritos por negros para nossas comunidades, também nos Estados Unidos havia vários periódicos pertencentes a igrejas afro-americanas, em que se publicaram protestos. Uma comissão de representantes religiosos, liderada pelo reverendo R.S. MacArthur, foi recebida pelo prefeito George McClellan que não considerou o assunto relevante.

Mas Ota começou a reagir violentamente às provocações, atirou flechas contra visitantes e lutou com funcionários. O prefeito, então, ordenou que ele fosse transferido para um orfanato destinado a crianças negras, dirigido pelo pastor James M. Gordon, no mesmo bairro, para trabalhar como faxineiro. Verner, adepto das teorias darwistas, acreditava que Ota iria evoluir, ao conviver com “civilizados”.

Empregado numa fábrica de charutos em Lynchburg, na Virginia, os anos se passaram e nada de o levarem de volta à terra natal. Em julho de 1914, estourou a Primeira Guerra Mundial e foram suspensas todas as ações de ajuda humanitária. Ota perdeu a esperança e passou a sofrer surtos psicóticos revezados com depressões profundas. Seu calvário durou dois anos.Ele tinha 32 anos, quando a desesperança venceu o desejo de viver. Realizou um breve ritual, em torno de uma fogueira, arrancou as jaquetas que cobriam seus dentes afilados e, em seguida, disparou uma pistola contra o próprio coração. Os interessados pelo assunto encontrarão na internet uma boa quantidade de informações a respeito desse africano vitimado pelo racismo. Há inclusive, um documentário, de 2002, intitulado Ota Benga: Um pigmeu na América, assinado pelo brasileiro Alfeu França, que incorporou filmes originais do início do século 20, e está disponível no Youtube. Em memória a Ota Benga, devemos refletir, nos mantermos alertas e nos utilizarmos de todas as armas para combater o racismo e qualquer ação que vise destruir nossa identidade e a verdadeira história dos povos negros.

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