Maurício Pestana debate em sua coluna "Grandes eventos, grandes oportunidades" as oportunidas que grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas podem trazer ao país

 

TEXTO: Maurício Pestana* | FOTO: Raquel Espírito Santo | Adaptação web: David pereira

 

Maurício Pestana discute os rolezinhos em sua coluna | FOTO: Raquel Espírito Santo

Maurício Pestana discute os rolezinhos em sua coluna | FOTO: Raquel Espírito Santo

Dos debates que tenho participado quanto ao desenvolvimento da comunidade negra no Brasil, na atualidade, o que mais tem me chamado a atenção é a respeito de como governo e iniciativa privada podem aproveitar os grandes eventos esportivos que o país está prestes a realizar – Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 – para intervir de maneira positiva em relação à distribuição de renda, serviços e fortalecimento de negócios entre empreendedores que nunca tiveram acesso a financiamentos ou contratos com grandes empresas e multinacionais, principais financiadoras desses acontecimentos.
Em um seminário organizado pela Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a ex-prefeita de Atlanta, Shirley Franklin apresentou um relatório de inclusão de empreendedores afro-descendentes e de minorias em sua cidade, por ocasião dos jogos Olímpicos de Atlanta. Franklin deixou os participantes entusiasmados quanto a eficiência, resultados e retorno social que o plano trouxe para essas comunidades, historicamente excluídas. Shirley falou também do legado de educação, emprego e desenvolvimento deixado pelo plano após a realização dos jogos.

Em sua exposição, relatou que, na época, ainda não era prefeita, mas fez parte da equipe de elaboração e acompanhamento de todas as interfaces do projeto de Igualdade de Oportunidades nos jogos de Atlanta, que teve um foco muito preciso: o envolvimento das empresas patrocinadoras do evento e do governo, financiador de grande parte das obras, no compromisso de priorizar em seus contratos a oportunidade para empresas de afro-descendentes, de mulheres e de outras minorias com histórico de dificuldade em obterem contratos com grandes empresas e com o governo dos Estados Unidos. O resultado – completou a palestrante – foi fantástico! Em poucos anos, empresas, que eram fundo de quintal e muitas de jovens empreendedores, mostraram talento e capacidade espetaculares, surpreenderam e mobilizaram, inclusive, os bairros e as comunidades de onde vinham, mostrando que tudo o que precisavam era apenas de uma oportunidade para poderem ver seus talentos reconhecidos.

 

É claro que a fala da entusiasta Shirley Franklin deixa algumas dúvidas quanto à aplicação de um plano nesses moldes no Brasil, país bastante diferente dos Estados Unidos da América. O primeiro e principal obstáculo é a cultura que impera no meio empresarial brasileiro, de que a responsabilidade de todas as mazelas é pura e simplesmente do governo. O segundo, também decorrente nesse meio, é o de que a questão racial é puramente social e que, se o cara for esforçado, tiver um pouco de sorte e trabalhar bastante, tudo será resolvido, inclusive, o racismo. Sim, esse mesmo que, contraditoriamente, muitas vezes inviabiliza o progresso de qualquer cidadão, seja ele empreendedor ou não.

Franklin deixou os participantes do evento entusiasmados, entre eles, o secretário de turismo, do trabalho e representantes do setor privado, enfim, gente com caneta e poder para começar a exercitar essa proposta, afinal, o Brasil já realiza um evento que movimenta milhões de dólares todos os anos, em todas as partes do país, cuja essência comseus surdos e tamborins está na arte e na cultura negra: o carnaval.

E, de quanto é mesmo o número de empresas de afro-descendentes ou de minorias historicamente excluídas que estão envolvidas? Quantas empresas de minorias têm contratos, por exemplo, com a Riotur e SPturis, empresas responsáveis pelos carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo?

 

*Maurício Pestana é diretor executivo da RAÇA BRASIL: pestana.raca@escala.com.br

 

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