Em sua coluna, Margareth Menezes escreve sobre as origens do pensamento afropop

 

TEXTO: Margareth Menezes | FOTO: Divulgação/Estúdio Gato Louco

Margareth Menezes escreve sobre as origens do pensamento Afropop brasileiro | FOTO: Divulgação/Estúdio Gato Louco

Margareth Menezes escreve sobre as origens do pensamento Afropop brasileiro | FOTO: Divulgação/Estúdio Gato Louco

Vocês conhecem as origens do pensamento AfroPop brasileiro? Diante de sua vastidão, os registros que existem sobre essa ótica conceitual ainda são vagos. Para se ter uma ideia, não encontrei em minhas leituras um pesquisador sequer que tenha se aprofundado no assunto, estudando cada elemento e procurando respeitar a história e a colaboração de cada ponto de fusão que culmina nessa identidade afro-urbana, tão viva e atuante no país. Minha reflexão começa pela história nacional.

Conhecemos personalidades e ícones negros que foram defenestrados pela história oficial, sendo os seus feitos diminuídos diante da sociedade de maioria branca, que, durante anos, impôs sua visão como palavra final na construção de nossa identidade. Essa história, encoberta e manipulada pelaignorância e prepotência de alguns falsos historiadores, terminou por gerar uma deformação no processo social.

Oculta-se, por exemplo, que o Brasil recebeu, durante o período da escravatura, visitas de negros livres vindos de países da África. Uns para alforriar seus pares, e outros, porque tinham negócios com a corte de Portugal. Oculta-se o aparecimento paulatino de professores negros das escolas primárias e universidades. Penso que, quando a história nega os valores das nossas ações - nos resumindo a coadjuvantes na construção da imagem social, cultural e acadêmica do Brasil – nega também nossa legitimidade de representação como cidadãos. Só para registrar, os irmãos baianos Antônio e André Rebouças – que nomeiam ruas e construções em todo o país, como a Avenida Rebouças, em São Paulo – eram engenheiros negros, formados pela escola militar, que ajudaram a construir belas obras arquitetônicas. Como eles, há muitos outros afro-brasileiros que formaram o Brasil moderno.

É preciso reconhecer também que não seríamos os mesmos sem a colonização portuguesa, sem os imigrantes e, sobretudo, sem nossos índios. Esta monumental mistura de culturas deu um molho diferenciado ao desenvolvimento da nossa gente e da nossa expressão criativa. Nesse contexto, o AfroPop brasileiro é contemporâneo, mas não se desliga de elementos ancestrais, de identidade forte. Assim, quando visto como comportamento musical contemporâneo, tem influências que vão da black music americana às guitarras do rock fundidas com tambores afro-brasileiros e indígenas, além dos trabalhos d’Os Tincoãs, Clementina de Jesus, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Moreira da Silva e outros que ajudaram a formar essa marcante identidade brasileira. Não é só uma questão de cor, e sim de amor a nossa maravilhosa força de expressão. O Brasil AfroPop está no samba-funk do Rio de Janeiro, nas fusões afro contemporâneas de Minas Gerais, nas batidas dos blocos afros da Bahia, na irreverência roqueira do manguebeat, no som de MC’s afro-brasileiros como MV Bill, em nomes como Seu Jorge, Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Novos Baianos, A Cor do Som, Jorge BenJor, Tim Maia, Djavan, Luiz Melodia, Tatau, Jau, Daniela Mercury, Tony Garrido, Sandra de Sá, Mart’nália, Paula Lima, Lenine, Zeca Baleiro, o meu e muitos outros. O AfroPop é uma identidade artística e de comportamento, não sendo, portanto, apenas um rótulo musical. Precisamos pensar o Brasil com mais pertencimento, mais propriedade. Nosso referencial nativo é necessário para construir um presente seguro.

A cultura que não se renova fica estática no tempo, endurece e envelhece dentro da sua rotunda. Nestes tempos de constante modernização, nós, afro-brasileiros, temos o direito e o dever de nos posicionarmos. O AfroPop brasileiro aposta no Brasil real, no Brasil moderno e no Brasil igual!.

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