Angela Davis e a força da mulher negra

Oswaldo Faustino conta a história de Angela Davis, ícone contemporâneo que representa a força da mulher negra

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | Adaptação web: David Pereira

Angela Davis e a força da mulher negra

Angela Davis e a força da mulher negra

Algumas imagens entram em nossa mente e ficam registradas feito tatuagem. Uma delas, dos anos de 1970, é a da bela e altiva jovem negra de cabelos black power, que se tornou imagem-símbolo dos Panteras Negras e que entrou para a lista dos dez foragidos mais procurados pelo FBI, acusada de conspiração, sequestro e homicídio.

Por motivos óbvios, em tempos de ditadura militar em nosso país, eram poucas as informações que nos chegavam, tanto sobre sua biografia, quanto sobre suas atividades político-revolucionárias e dos grupos pelos quais militou. Mais de 40 anos depois, essa professora e filósofa socialista mantém o mesmo espírito combativo anticapitalista, debatendo soluções para melhoria da qualidade de vida da população afro-americana e participando de eventos no mundo todo, com a mesma altivez e determinação.

À parte de sua personalidade guerreira, podemos dizer que Angela Yvonne Davis é fruto do meio em que viveu. A cidade de Birmingham, a maior do Alabama, onde ela nasceu em 1944 é um dos estados mais racistas da federação e foi palco de inúmeros conflitos raciais e ataques da Ku Klux Klan contra negros e negras. Foram tantos os atentados a bomba que a cidade passou a ser conhecida como “Bombingham”. O mais famoso foi contra uma igreja batista frequentada por afro-americanos, em 15 de setembro de 1963, que resultou na morte de quatro meninas, com idades entres 11 e 14 anos, e ferimentos em outras 20 pessoas. Thomas Blanton, o único sobrevivente dos membros da facção acusada do crime, só foi condenado à prisão perpétua em 2001, 38 anos após a tragédia. O julgamento foi adiado tantas vezes que até mesmo o diretor do FBI duvidava que um júri, no Alabama, o condenaria.

Em meio a essa realidade repleta de humilhações e perigos, aos 14 anos, Angela conquistou uma bolsa de estudos que a levou para Nova Iorque, onde foi viver entre artistas e intelectuais do Greennwich Village. Ali, fascinou-se pelo comunismo e o socialismo, e ingressou numa organização com propósitos revolucionários. Sempre focada nas questões raciais e feministas, filiou-se primeiro ao SNC – Student Nonviolent Coordinating Committee, liderado por Stokely Carmichael, cuja proposta era a luta não violenta pelos direitos civis dos afro-americanos. Na década seguinte, acompanhou Carmichael na mudança para o Movimento Black Power, pautado no orgulho racial negro, na criação de instituições culturais e na busca de uma autonomia para a população afro-americana. Diante da repressão, Angela Davis radicalizou e partiu para luta armada, pelo Partido dos Panteras Negras.

O nome de Angela foi vinculado a um episódio sangrento: a invasão de três Panteras Negras ao Palácio da Justiça do Condado de Marin, em São Francisco, quando fizeram reféns um juiz, um promotor e alguns jurados. Seguiu-se perseguição policial, tiroteio e a morte do juiz, baleado na garganta. Um disparo de uma das armas da polícia atingiu o promotor, que ficou paraplégico. O objetivo dos invasores, além de ajudar a fuga de um companheiro que havia esfaqueado um policial, era exigir a libertação dos militantes George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, encarcerados no presídio de Soledad, em Monterrey. A arma utilizada por um dos invasores do palácio da justiça estava registrada em nome de Angela Davis, que fugiu da Califórnia. Alvo de uma das mais intensas caçadas humanas, ela foi presa em Nova Iorque, depois de dois meses de perseguição. Seu julgamento foi o centro da atenção da mídia norte-americana por 18 meses.

Não lhe faltou apoio em todos os setores sociais, em especial no mundo artístico. No banco dos réus estava uma jovem negra, linda, culta, de discurso brilhante. John Lennon e Yoko Ono a homenagearam com a canção intitulada “Angela”, e os Rolling Stones cantaram sua história e exigiram sua libertação, com o rock’n’roll Sweet Black Angel”. Os crimes dos quais foi acusada ficaram em segundo plano, ante os debates sobre as questões raciais naquele país. E Angela foi considerada inocente.

Após sua libertação, em 1972, partiu para Cuba, onde já se encontravam o Pantera Negra Huey Newton e o Black Power Stokely Carmichael. Ali, foi aclamada pela população negra nativa das ilhas, até então aparentemente apática com relação a questões raciais, segundo o escritor, pesquisador e cientista social Carlos Moore. Filiada ao Partido Comunista, retornou a seu país em 1980 para concorrer à vice-presidência da república, na chapa de seu partido, que recebeu quantidade inexpressiva de votos. Angela Davis, porém, iniciou ali seu embate por uma causa que a ocupa até os dias atuais: a luta pela extinção da pena de morte em todos os estado da federação e pela melhoria das condições carcerárias. Afinal, a grande maioria da população carcerária dos EUA tem raça e classe social: é negra ou latina e é pobre. Por isso ela se considera uma “abolicionista”. Ela já esteve algumas vezes em eventos realizados no Brasil e tem bastante proximidade com entidades dedicadas às questões de etnia e de gênero, como o Geledés – Instituto da Mulher Negra. Em uma de suas falas, advertiu sobre a importância da classe média negra não apartar-se da população mais pobre. E relembrou o slogan de um antigo grupo de mulheres negras com maior visibilidade, voltado àquelas que viviam às custas da Previdência Social: “Puxar para cima enquanto a gente avança”. Angela Davis, sem dúvida, está entre os melhores vinhos produzidos pela diáspora africana.

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