Existem Amélias na República Democrática do Congo (RDC)? Sim! Mas não saberia precisar se utilizarão o alto-falante de direitos tanto quanto nós no Brasil.

É um lavar, passar, arrumar, cozinhar; ter filhos e cuidar; orientar o lar e as crianças; garantir o bem-estar do esposo e da família; e, seguir à risca os deveres comportamentais e costumes congoleses. De forma silenciosa. E eterna?

As novas senhorinhas, recém-casadas, seguem os códigos de conduta sem reclamar. Talvez não enxerguem mesmo que possuem direitos, mas só deveres; e estes, se não cumpridos, acarretarão na perda do cônjuge para outra Amélia que aceite o “desafio”.

Apesar das jornadas do homem e da mulher serem exatamente iguais, ou seja – 24 horas – tenho escutado que homem não cozinha; e não cuida de criança, por ser matéria exclusiva do gênero feminino. Homem não chega perto do fogão, salvo se for profissional de gastronomia; ou aqueles que já entendem as extensões do machismo e o combatem.

É comum, na RDC, a existência de homens que não autorizam as mulheres a trabalharem fora de casa; e algumas destas, reprimidas pelos preconceitos, travam grandes batalhas diariamente, até dentro de igrejas ditas cristãs para exercerem funções de liderança no meio eclesiástico. Ainda que este seja um trabalho voluntário e não remunerado.

Percebam que houve alteração da Lei 87-010, de 1º de agosto de 1987, pela Emenda de Lei 16/008, de 15 de julho de 2016, que suprimiu a necessidade de autorização marital da mulher casada para exercer um ofício.

kasai-rd-congo-congoleseO pior de tudo é ver que a concorrência no mercado de trabalho é desleal. E funciona no padrão do sexismo mais-que-assimétrico. As funções análogas às ditas “femininas” aqui no Brasil têm sido assumidas, na RDC, por homens, o que aumenta a concorrência do trabalho informal entre os gêneros; e diminui o campo de oportunidades de empregos para a mulher. Um exemplo disso é o trabalho de manicure e pedicure, lá desempenhado exclusivamente por homens. Eles passam nas ruas batendo frascos para atrair a clientela e, ao serem solicitados, sentam-se nas entradas das casas para cuidarem das mãos e pés de 51% da população congolesa, que é composta por mulheres. É desta forma que a maioria da população de classe média faz as unhas, exceção feita às mulheres que podem pagar o preço dos nails bar, cujo atendimento é feito por estrangeiras, deixando mais uma vez a mulher congolesa no desemprego.

Ainda mais: são os homens congoleses que confeccionam perucas e entrelaces, além de fazerem escovas e outros serviços de cabeleireiro, atividade laboral extremamente rentável no país, já que a maioria das congolesas troca de perucas com certa frequência.

O que resta para essa mulher de classe média baixa? Se conseguirem convencer seus maridos, comprarão itens de hortifruticultura, mercadorias usadas ou até novas para revender na grande feira ao céu aberto, em condições desfavoráveis, principalmente em épocas de chuva. Mas, antes e depois da jornada de trabalho, existem as tarefas como a assistência ao seu esposo filhos. Na RDC ainda se lava roupas à mão, o que aumenta de maneira considerável o trabalho doméstico, deixando muito pouco tempo de sobra para que a Amélia possa se transformar numa rainha de Sabah e escolher seu próprio destino.

O que irá acontecer com a força dos costumes congoleses? Será vencida pela ocidentalização ou valerá o ditado: em briga de marido e mulher ninguém mete a colher?

jamileJamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

Comentários

Comentários