Centro Técnico de Produção de Figurino do Teatro Castro Alves, Salvador – BA Foto: Cleitson Cunha, 2016.

Com o crescente aumento das denúncias de racismo e intolerância religiosa, a oportunidade de levar uma coleção para desfilar em Luanda, no Angola International Fashion Show em 2016, foi uma das justificativas para pensarmos no papel das mulheres negras e das religiões de matriz africana na constituição de uma cultura afro-brasileira. A Coleção Asè foi criada num coletivo de muitas mãos e trata também dessas violências e das invisibilidades provocadas, pois lida com afetos e memórias das pessoas componentes da equipe, ao construir os looks do desfile com peças doadas e cheias de história, como a toalha de mesa ainda inacabada em crochet, que pertencia à mãe de Cllaudia Soares - uma das estilistas e co-autora do trabalho; a colcha de cama que foi parte do enxoval de casamento dos meus avós em 1950, os bordados retirados de blusas antigas usadas pela avó de Laila Rosa – compositora da trilha do desfile – que era integrante do Terreiro Xambá em Recife –PE.

Provocando por meio da criação, uma das reflexões caras ao campo de estudos feministas, penso na assimetria da valorização entre as esferas pública e privada, e assim fui coletando produtos artesanais feitos para casa, como os bordados especiais vendidos como porta-copos, cortinas, toalhas de mesa, colchas de cama e outros elementos socialmente desvalorizados e sempre disponíveis nos mercados populares do Nordeste. A coleção propôs uma ressignificação desses materiais, bem como uma ampliação das formas de luta política contra o racismo, ocupando a passarela de moda para fazer ecoar temas ainda invisíveis.

Na construção das peças do acervo da Coleção Asè, fizemos uma imersão no Centro Técnico de Produção de Figurino do Teatro Castro Alves, um dos maiores equipamentos culturais da Bahia, e ao convocar colaboradoras voluntárias pelas redes sociais, pude contar com o apoio de cerca de 50 pessoas entre as áreas de costura, corte, modelagem, bordado, produção de moda ou como maquiadoras, fotógrafas, modelos, designers de acessórios e stylists, em sua maioria mulheres negras que são pequenas empreendedoras, artistas e ativistas da cidade de Salvador, Bahia. Trabalhamos juntas durante dois meses, num processo de troca de saberes, transformando o atelier num espaço de formação técnica, estética, política e de afetividades.

Os têxteis artesanais adquiridos nos mercados de artes de João Pessoa – PB, Recife - PE e Salvador – BA serviram como matéria prima da coleção Asè, que se construiu a partir dos materiais de decoração feitos em renda filet, bordados richelieu, crochet, renda renascença e outras tramas constituídas de fios naturais e típicos de casas populares no Nordeste do Brasil. Fazeres artesanais característicos de mulheres negras e pobres, que são reinterpretados para construção das peças de roupa e da imagem da coleção, transitando da intimidade do lar para o aspecto simbólico hierárquico da passarela e da fotografia, que ainda separa e une mulheres de diversos contextos e tempos históricos diferentes. No atelier da Coleção Asè, unidas por um objetivo político comum, que mobilizou mulheres de crenças e religiões diversas, a luta antirracista por meio do fazer artístico em moda continua sendo umas das nossas estratégias de artivismo.

CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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