Desde quando tocar tambor é propriedade de apenas um segmento religioso, povo, ou uma etnia? Tenho encontrado os “pracatás” da percussão ecoando em lugares bem distantes e distintos, sejam estes de cunho geográfico ou religioso.

tambor1No Brasil, existe a crença de que todo tambor é simplesmente mais um. Mas isso é um engano, quando analisamos sua funcionalidade. O tambor transmite mensagens e toques únicos. Nele, há pertencimento. Mas os instrumentos que embalam povos com danças ritmadas e expressões culturais - não devem ser monopólio de uma doutrina específica.

Infelizmente, no Brasil, existem vinculações de alguns itens percussivos a apenas um segmento religioso, o que aborta o multiculturalismo; e omite que a percussão é uma linguagem comum para muitos de origem africana e de seus simpatizantes.

Sou do tempo que o “baticum” dentro das igrejas evangélicas era considerado “do diabo”, fruto de puro preconceito. Muitos se esqueceram de que pretos com ascendência africana ou outras pessoas influenciadas por ritmos africanos poderiam optar por cultuar a Deus com instrumentos distintos dos utilizados pela música clássica.

Há africanos adeptos da religião tradicional africana, aos testemunhas de Jeová, à maçonaria, ao catolicismo, cristianismo evangélico, mormonismo, islamismo, quimbanguismo. Algumas dessas confissões religiosas fazem uso da percussão em seus rituais, sim!

Encontrei no Sudão, um país islâmico, o tamborim, a conga, o timbau entre outros sendo eminentemente tocados por mulheres. No Centro de Música Tradicional Sudanesa, na cidade de Omdurman fui apresentada a registros de 143 horas de músicas tribais; e também tomei conhecimento da existência de instrumentos tradicionais, cujos sons possuem significação específica, propagados em momentos distintos. Práticas encontradas no Sudão, em outros países africanos, no Brasil e no mundo. Por fim, conheci o histórico Tambor de Fenda Sudanês, encontrado no século XIX, próximo da cidade de Khartoum. Este tambor específico traz as histórias da cultura indígena africana, do tráfico de escravos em Khartoum e da luta européia para subjugar a África no ano de 1900. A função desse tambor de simbologia política era a de comunicar nascimentos, mortes, festas, caça e guerra.

De maneira semelhante, encontrei o Kyondo, com formato de tronco de árvore, com fendas, utilizado pelos povos da República Democrática do Congo. Atualmente compõe os cultos evangélicos como expressão de louvor e adoração a Deus.

No Brasil, de tamanho maior - e preso por cordas suspensas - o Tambor de Fenda chama-se Torokaná (trocano), e é familiar aos indígenas, servindo de comunicação entre pontos distantes.

De fato, a identidade cultural dos povos é manifesta das mais variadas formas. Por isso, espero que através de muitos instrumentos de percussão o som se expanda sem barreiras físicas e intolerâncias, como canta o pastor evangélico Séo Fernandes: “Bote o tambor pra tocar, pra Ele”.

jamile cerqueira

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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