Maman Catherine é a dona do prédio onde moramos; de aparência gentil, sempre vestida tradicionalmente, recebeu-nos calorosamente e adotou-me como filha. Agradeci pela gentileza e pelo carinho; ainda sem saber de certas consequências.

Registro que uma mulher só se torna uma maman para valer no Congo, se for casada – oficialmente – e tiver filhos. Por outro lado, não é comum que as jovens casadas tenham alguma experiência de vida, pois o que realmente conta é o conhecimento oral; e não o acadêmico. Desta forma, ainda que graduadas, as mulheres são sempre dependentes dos ensinamentos das mais velhas, para guiá-las por toda a vida.

Por tais razões, até então desconhecidas para mim, maman Catherine entrou em minha casa e começou a dar ordens. Lembrei-me do Brasil: “Quem pariu Mateus que o balance”. Mas aqui, não: todo mundo quer botar a mão no berço de Mateus! Ditadura matriarcal de mulher casada. Até o tecido de minhas cortinas ela discutiu!

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Fiquei curiosa: e o casamento entre congoleses, como acontece? Por amor, é raro; mas possível. Por pena, se a mulher dá uma chance a um insistente – que, nem sempre, está financeira e psicologicamente pronto. Como pagamento de débito, ocorre quando os pais oferecem uma de suas filhas como moeda de troca. Por status, se um dos cônjuges de situação financeira inferior percebe oportunidade de enriquecimento ao casar-se com alguém abastado. Por contrato, sempre que um homem resolve pagar os estudos de uma jovem, mesmo sendo ela, ainda adolescente, irá casar-se com o “generoso”. Já o casamento por obrigação acontece quando os tios ou pais escolhem um marido para a mulher. E, ainda, há os casos de casamento pós-violência sexual, em que a mulher, rejeitada pela própria família, fica obrigada a viver com o estuprador: como forma de esconder sua vergonha.

Esse é o cenário dos dramas e das tramas: com tudo transmitido de geração a geração, pela oralidade das avós. Ainda adolescentes, sem condição social digna, as meninas descobrem no matrimônio a oportunidade de sair da miséria. Abandonam os estudos, casam-se e reproduzem orgulhosamente: oito, treze, vinte filhos! E, ainda que não haja condições para alfabetizar todos, entendem a procriação em série como uma bênção divina.

Os meninos, por outro lado, são sempre a prioridade da família. Se, nenhum homem nascer, será a prova de que Deus não abençoou o casamento. Crença válida tanto para ricos quanto para pobres. A solução: tentar, até que consigam um bebê macho.Ou, em casos de esterilidade, a família do homem o obrigará a arranjar outra esposa que gere filhos, sobretudo um menino, o verdadeiro presente da família.

Ao saber de tudo isso, passei a ver com outros olhos Dona Catherine, que nunca completou os estudos; mas segue desenvolvendo o seu papel de maman, como manda a tradição.

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

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