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Colorismo

  • Autor: redação redação

  • Publicado em: 29/08/2018

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Expressão colorismo (pigmentocracia) foi utilizada pela primeira vez pela escritora americana Alice Walker, em 1982, na obra If the Present Looks Like the Past, What Does the Future Look Like? (Se o presente parece com o passado, como será o futuro?). Ainda assim, seus efeitos são atuantes em qualquer nação, especialmente em países que passaram por processos de colonização e escravidão.

Mediante a existência do racismo e da discriminação que se processa a partir de um tratamento desigual dispensado ao grupo negro em todas as esferas sociais, pessoas negras de pele mais clara, ou com características fenotípicas menos negroides, enfrentam com menos intensidade discriminações raciais que pessoas negras de pele mais escura ou com traços fenotípicos mais negroides; nesse sentido, há uma tolerância maior sobre quem é lido socialmente como “menos negro”, mas não uma aceitação plena.

Até meados do século XX, o pensamento dominante sobre a mistura do branco com o negro no Brasil era compreendido enquanto um equívoco que traria a degenerescência àqueles que se constituíssem enquanto frutos

dessas relações. A terminologia “mulata”, que provém de mula, animal híbrido,decorre dessa compreensão. Nessa circunstância, a elite branca da época,que tinha seu olhar voltado para a Europa, entendia que havia um grande problema na quantidade de negros que estariam em solo brasileiro no pós escravidão e a alternativa mais viável foi abandoná-los à própria sorte e financiar a vinda de imigrantes italianos para fortalecer a ideia de avanço e progresso, clareando inclusive a nação.

O mito da democracia racial brasileira nasce nesse cenário, especialmente a partir da obra Casa Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre. Houve uma reinterpretação cultural sobre o discurso racial a partir da miscigenação e da mestiçagem, que reforçou politicamente

uma falaciosa ideologia de que no Brasil a escravidão teria sido mais branda quando comparada ao processo de outras nações ou de que aqui não haveria diferenciações a partir das linhas de cor, embora práticas sociais denunciassem exatamente o contrário.

Analisando historicamente a formação racial do Brasil e a miscigenação, o professor Kabenguele Munanga, antropólogo aposentado pela Universidade de São Paulo (USP), atuante no estudo das relações raciais no Brasil, descreve em Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil (2004), o quanto o nosso processo de colonização foi violento, incidindo, inclusive, a partir do estupro de mulheres negras e indígenas.

De acordo com Munanga, no contexto do Brasil colonial, mulheres representavam uma minoria numérica, sendo as negras escravizadas muitas vezes obrigadas a se relacionarem sexualmente com homens brancos sob uma lógica perversa e truculenta. Nessa perspectiva, resta dizer que é preciso considerar tais históricos para se pautar a formação racial brasileira.

Pensar criticamente processos tão desumanizantes como a escravidão e a persistência do racismo é também entender que tentativas de branqueamento no Brasil foram conjecturadas para o apagamento da história do povo negro, intensamente explorado e desfavorecido. Nessa medida, é possível aferir que o branqueamento sustentado pela mestiçagem permanece enquanto ideologia, e que o colorismo precisa ser observado enquanto um fator de apreensão das desigualdades com base na raça, que ainda hoje sustentam nossas relações sociais. Ademais, conforme demarcou o sociólogo Oracy Nogueira no clássico Tanto Preto Quanto

Branco: Estudo das Relações Raciais (1985), a marca (fenótipo) se manteve enquanto determinante, resultante do já mencionado discurso colonizador.

Texto:

Najara Lima Costa é socióloga formada pela Universidade Federal Fluminense, mestranda em ciências humanas e sociais pela Universidade Federal do ABC, professora de sociologia jurídica e pesquisadora das relações raciais.

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