“Represento, sim, 0,4% do universo de presidentes”, diz Rachel Maia, mulher, negra e CEO da Pandora

Mulher, negra e brasileira – embora seu nome tenha a pronúncia americana –, Rachel Maia começou uma palestra recente em São Paulo com a frase: “Represento, sim, 0,4% do universo de presidentes”.

O número ínfimo se refere às mulheres negras em cargos executivos nas maiores empresas do Brasil, como ela faz como CEO da operação brasileira da Pandora, uma das maiores joalherias do mundo, há sete anos. “O luxo é loiro, magro e tem olhos azuis. Como eu vim parar aqui? Não é fácil, mas tenho uma resposta.”

O evento de que participou marcou o lançamento do prêmio Valuable Young Leaders, organizado pela consultoria Eureca com o apoio da Harvard Business Review Brasil, e que busca identificar e valorizar jovens líderes no segmento intraempreendedor, ou seja, aqueles que empreendem e inovam dentro da organização em que trabalham.

Trajetória

Rachel tinha um diploma em Ciências Contábeis da Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) quando começou a trabalhar na 7-Eleven, empresa americana com uma cadeia de lojas de conveniência em vários países, nos anos 1990.

Quando a companhia deixou o Brasil, ela usou o dinheiro da rescisão para “investir em mim mesma”. Foram dois anos em Vancouver, no Canadá, onde estudou inglês e administração. “Passei as primeiras semanas falando só a frase ‘oh, it’s so beautiful’”, riu ela, que hoje mistura os idiomas sem nem perceber.

“O conhecimento é poder, é inclusivo e é compartilhável”, empolgou-se Rachel, que separa pelo menos um mês por ano para novas especializações, como cursos de liderança e negócios na USP, Harvard Business School e Fundação Getulio Vargas.

Quando voltou ao Brasil, tornou-se gerente financeira da Novartis, grupo farmacêutico onde trabalhou por quatro anos, um deles nos EUA. Até então, suas indústrias de interesse eram a farmacêutica e a automobilística – nada mais.

A indústria de luxo

Apaixonada por arte e especialmente por Pablo Picasso, ela estava em Nova York quando decidiu voltar a São Paulo impulsivamente para conhecer a filha do pintor, Paloma Picasso, que estava lançando uma linha de joias com a Tiffany & Co., uma das joalherias mais tradicionais do mundo.

Foi ali, em 2000, que caiu no mundo do luxo por acaso. Abordada por um headhunter, descobriu que a empresa buscava uma mulher especializada em contabilidade e capaz de falar inglês. “Um elefante branco”, divertiu-se Rachel.

Apesar de não ter interesse na área, aceitou fazer o processo seletivo, que mesmo com a clara preferência por mulheres incluía diversos homens – ainda era difícil, na época, encontrar quem preenchesse todos os requisitos.

“Eu não queria aquele emprego”, explicou Rachel. “Mas decidi que, se as outras empresas não entrassem em contato, aceitaria.”

Na segunda etapa da seleção, mesmo com uma dose de desinteresse que eliminava parte do nervosismo natural, ela se lembra do pânico que sentiu quando “deu branco” em uma entrevista em inglês com o Chief Financial Officer (CFO) global. “Ele teve piedade de mim e fez a pergunta de novo”, riu.

Deu certo. Selecionada, Rachel acabou passando sete anos como CFO da Tiffany & Co. no Brasil até ser abordada novamente, dessa vez por representantes da Pandora, que lhe ofereceram o cargo de CEO e a missão de instalar a empresa – que faturou cerca de US$ 3 bilhões globalmente em 2016 – no país.

Desde então, fez crescer agressivamente o negócio. Se em 2009 eram dois pontos de venda, hoje a Pandora soma 92, entre franquias e lojas próprias, além do canal de e-commerce. A ideia é oferecer “luxo acessível”, o que permitiu que a marca continuasse forte durante a crise.

Para ela, sua história ilustra o que ela chama de poder da escolha: “Tenho foco, fui lá e fiz”.

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