Em um país devastado por guerras, com índices de pobreza alarmantes, é a produção cultural do povo que se sobressai. E vem da República Democrática do Congo esse estilo musical inovador, hipnótico, dançante, ancestral e moderno. Saiba mais sobre os ritmos do Congo

 

TEXTO: Marco Antonio Miguel | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

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A inovação vem da eletrificação de instrumentos tradicionais. O acústico é amplificado. Canções de rituais unem-se às distorções e experimentações. Parte tradicional, parte rumba africana, pode dialogar com o rock, conversar com o eletrônico.

Tudo isso com muita inventividade. Os instrumentos são construídos e improvisados artesanalmente. Essa sonoridade estava “escondida” há mais de trinta anos, restrita a apresentações em pequenas casas de shows, bares, festas, casamentos ou funerais na periferia de Kinshasa, capital do país, antigo Zaire. Após a independência, em 1960, a nação passou por várias guerras civis e a ditadura de Mobutu Joseph Desiré. Seus subúrbios são povoados por refugiados, que promovem o encontro (nem sempre pacífico) de diferentes etnias, ritmos e costumes.

Congotronics é o nome de uma coleção de discos lançada a partir de 2004. Cada grupo tem seus ritmos e influências. Em comum, a eletrificação. O primeiro disco da série tinha exclusivamente canções do grupo Konono Nº 1. O coletivo existe desde 1970 e é capitaneado pelo instrumentista Mawangu Mingiedi, que toca kalimba (piano de polegar formado por hastes de metal presas a uma cabaça ou tábua, também conhecido como mbira, likembé e sanza). Como é um instrumento acústico, Mawangu decidiu plugá-lo para que mais pessoas pudessem ouvir suas apresentações.

O som ficou sujo. Poderia ser um problema, mas ele resolveu incorporar a distorção e a reverberação à sua linguagem, provocando uma transformação radical. Mas não é só isso. A banda utiliza instrumentos e equipamentos de som improvisados, construindo microfones e percussões a partir de peças de automóveis e outras peças metálicas (panela, frigideiras), recuperando megafones da época colonial. Suas apresentações incluem três kalimbas elétricas (baixo, médio e agudo), tambores, cantores e bailarinos. O Konono Nº 1 não é uma banda de garagem, é uma banda de ferro-velho.

Em entrevista ao site Afropop Worlwide (www.afropop.org), Mawangu Mingiedi, membro de uma etnia que vive próxima à fronteira com Angola, disse: “É um estilo de música influenciado pelo masikilu (músicas tocadas em funerais), que usa tambores e um trompete feito de chifre de elefante. Nossa música está em contato com os antepassados. Embora eu tenha colocado metal e componentes eletrônicos nos instrumentos, ainda estou me comunicando com eles.”

Com o lançamento do CD Live at Café Couleur, em 2007, a banda ganhou o Prêmio BBC de World Music, foi indicada ao Grammy e participou de Volta, trabalho da cantora islandesa Björk. O Konono Nº 1 toca principalmente na Inglaterra e na França, e até em festivais de rock, como o Coachella. No final de 2010, foi lançado o segundo disco do grupo, Assume Crash Position.

A Sta Benda Bilili nasceu da união de diversos artistas paraplégicos que sobreviviam com o dinheiro que arrecadavam nas ruas cantando e tocando | FOTO: Divulgação

A Sta Benda Bilili nasceu da união de diversos artistas paraplégicos que sobreviviam com o dinheiro que arrecadavam nas ruas cantando e tocando | FOTO: Divulgação

 

A PERSISTÊNCIA DE VICENT KENIS

Grande parte da divulgação desses grupos deve-se ao músico e produtor belga Vincent Kenis, que trabalha com o selo Crammed Discs. Em seu currículo, participações ou produções de discos de Franco Luambo Makiadi e sua Jazz OK, e Papa Wemba, além de compilar a excelente antologia The Roots of Rumba-Rock, com músicas da década de 50. Outro trabalho interessante é o da banda congolesa Staff Benda Bilili.

Procure na internet, porque nada foi lançado no Brasil. Vicent conheceu as bandas graças ao amigo Bernard Treton, responsável pelos primeiros registros do gênero, no disco Musiques Urbaines a Kinshasa, gravado em 1980, mas lançado sete anos depois. Para chegar ao primeiro disco da coleção, passaram-se mais de duas décadas. A primeira tentativapara encontrar Konono foi em 1989. Nada. Em outra viagem, em 1996, ele se deparou com as bandas de Kasai, mas Mingiedi e sua banda tinham desaparecido. Diziam que estavam emAngola. Em 2000, Vicent deixou um bilhete em um fã-clube da banda e conseguiu achá-los. No vai e vem entre países, somente em 2004 conseguiu gravar o disco.

Pode-se dizer que é uma segunda expansão da música congolesa, que participou do sucesso do afropop na França da década de 80, com o Soukous (também conhecido como Congo ouLingala), gênero que surgiu durante os anos 30 e ganhou popularidade em todo o continente e na Europa. Eram big bands com guitarra, baixo, bateria, teclados, metais, percussão econtavam com quase 20 músicos. Os principais nomes são Papa Wemba, Kanda Bongo Man, Diblo Dibala, Bel Jeannot Musumbu, Bel Mbilia e Loketo.

O diálogo com os ritmos tradicionais é mantido, mas o som se aproxima do jazz e do pop, com domínio e diálogo com os sintetizadores usados pelos músicos do período.

Além da internet, é possível ouvir a música do Congo bem de perto. Em São Paulo, bandas aproximam nossos ouvidos da produção musical contemporânea africana, demonstrando que o diálogo entre a tradição e o moderno ainda pode render muitos frutos.

 

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