Em todo lugar se fala sobre empoderamento e empoderar.  A língua com sua competência vulgar produz uma junção de letras – palavra, e a carrega de significados, surge como já existisse em nós e brotasse de um adormecer secular.

Empoderamento: conscientizar e tomar o poder, mudar a estrutura política, econômica e social, para mudar vidas. Todavia, uma coisa curiosa acontece, meu corretor do Word, no Windows, não reconhece a palavra empoderamento, por isso fui buscar o que significa, não na corrupção da sua origem em inglês, “empowerment”, mas na prática e na vida real.

Decepção veio, nada se tem de novo, apenas o vocábulo. Quando eu era pequeno, nós negros pensávamos mudar o mundo, a vida de todos no bairro, casas, comprar carro e poder comer fora um dia. Nossas mães insistiam dizer, de forma radical e ríspida: meninos estudem! Na verdade, não entendíamos muito o significado da exigência, ainda mais quando era acompanhada por: “tem que estudar para ser alguém na vida! ”.

Assim, os irmãos e irmãs nascidos na década de 60 e 70, queimaram os cílios nas chamas solitárias de velas no escuro, estudando para ser alguém. Em resumo se queria entrar na universidade e ser doutor, tomar os espaços de poder e sermos chefes, ganharmos altos salários e ofertar à família condição digna de existir. Acredito que este projeto exigia mais que ter uma aparência que desafie a estética de cabelo, ritmos musicais e palavras de ordem. Estudar não é fácil, ainda mais sem livros e acesso.

Mas, se depois de cinquenta anos fizemos e conseguimos tanto, onde andam todos, em que posições, lugares, poderes e espaços se encontram?

Fui um universitário tardio, ao ingressar na faculdade encontrei vários da minha época, bem posicionados: doutores, mestres, intelectuais e renomados bacharéis. Militantes e outros mais discutiam sobre cultura, racismo, feminismo, discriminação, religião, poder e espaço.

Cultos e bem vestidos, vocabulário vasto, poderosos e cheirosos. Empolgado fui cumprimenta-los e o espanto me tomou, eles estavam surpreendidos por eu estar ali, na faculdade. Naquele dia descobri que eu não era um igual, um irmão, tinha me tornado um “objeto de estudo”. Neste dia voltei para o bairro e entendi porque tudo continuava da mesma forma. Aqueles que saíram da caverna, viram a luz e nunca mais voltaram, para eles somos pobres sombras acorrentadas na história dos objetos.

Alguns se tornaram “nobres” e a reboque o olhar. Nos vêm tão diferentes que os nossos deixaram de ser fenômenos par se tornarem conceitos, como: excluídos, minoria, comunidade, etc. De cima do púlpito proferem palestras, debates e seminários, saem em jornais e esperam a boa vontade da mídia por uma reportagem na TV para falarem de nós, o que eles eram antes. Os filhos dos filhos dos nossos irmãos não são “nós”, são “eles”. Produzimos uma elite intelectual que não reconhece sua ancestralidade nos novos e mergulha as tranças empoderadas, todos os dias, no espelho barato de narciso.

As vezes aparecem com seus carros polidos, batas com estampas, turbantes, pulseiras de prata, falando inglês, iourubá e francês.  O olhar da juventude admira e inveja, mas ao mesmo tempo pergunta: de que vale tudo isso, se você não está aqui? 

 

Evandro Calisto

Cientista Social formado pela Universidade Federal da Bahia, professor de filosofia e sociologia, consultor na área de gestão de pessoas e gestão pública. Toda Segunda-feira escreve para à Revista Raça.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas.

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