O colunista Moisés da Rocha escreve sobre a dependência tecnológica na atualidade. Leia

 

TEXTO: Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O colunista Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação

O colunista Moisés da Rocha | FOTO: Divulgação

O ser humano é descrito por cientistas como um ser que vive em grupos, portanto, em sociedade. Mas quando ele se desenvolve tecnologicamente, acaba se tornando escravo - já cooptado plenamente pelo capitalismo, que passou a administrar suas invenções.

Podemos enquadrar nessa dependência tecnológica os aparelhos sonoros, visuais e de comunicação. Andando pelas cidades, a qualquer hora, temos a horrível impressão de que estamos participando de um daqueles filmes de terror, daqueles com um monte de mortos vivos. Ninguém se fala; ninguém se olha; ninguém se toca. Pessoas das mais variadas idades, das mais variadas tribos, estão caminhando de cabeça baixa, às vezes falando sozinhas (com o fone), sem prestar atenção no trânsito e nas buzinas. O mesmo acontece na escada rolante, no embarque e desembarque de metrô, trens e ônibus. É como se estivessem sozinhos no mundo e não vivessem em sociedade. Quando saem em família, cada um porta o seu dispositivo “companheiro eletrônico”.

O ser humano está sob o encanto da indústria da quinquilharia. As bugigangas tecnológicas foram colocadas ao alcance de quase toda a população mundial. Sob essa magia, o ser humano fica incapaz de perceber que a civilização está involuindo, caminhando para trás. Há no ar um clima de babárie que a maioria – cada vez mais silenciosa e silenciada - não percebe.

Está todo mundo conectado, mas ao mesmo tempo distante. Nessa conexão, prevalece o besteirol, a desconstrução da cidadania, as inversões de valores. Na política se vê de tudo. Partidos políticos produzindo uma enxurrada de ataques, denuncias, mensagens apócrifas e tudo o mais, menos uma discussão que objetive o progresso do país e a proteção do cidadão. Os sites de fofocas, bombando cada vez mais, permanecem com o foco voltado apenas para os desgastados temas novelísticos e seus atores, cujo comportamento, dentro e fora do trabalho, se tornou o espelho para nossa juventude. Na música, então, qualquer um - sem depender de uma gravadora -, despeja uma onda dos hits da moda. É um tal de “dom, dom, dom, um lepo lepo, tchuque tchuque, ai se eu te pego, vou te pegá, eu já peguei” que, ao lado das mulheres frutas e garotões sarados, se tornaram a coqueluche, paralelamente engordando as contas bancárias desses pseudo-artistas. E hoje em dia, nesse país onde há décadas a educação familiar e escolar vem sendo negligenciada, meninos e meninas estão sendo expostos como artistas precoces, nesse mundo do vale tudo artístico, sob o olhar complacente das autoridades e das próprias famílias.

A tecnologia não está sendo usada para a educação e o desenvolvimento do ser humano. Na rede, todos estão acostumados às tragédias, e as compartilham com a maior naturalidade. A barbárie já não comove mais ninguém. Na televisão a mesma coisa: a violência, repetidas dezenas de vezes em programas campeões de audiência, já está no cérebro do telespectador. Linchamentos, pais matando filhos, filhos matando pais, assassinatos de idosos... Tudo passou a ser visto com naturalidade. Eu pergunto: o mais importante é estar conectado?

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