Confira o depoimento do cineasta Joel Zito Araújo sobre o ator e diretor Zózimo BulBul

 

TEXTO: Joel Zito Araújo | FOTO: Ierê Ferreira | Adaptação web: David Pereira

Zózimo Bulbul nos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro | FOTO: Ierê Ferreira

Zózimo Bulbul nos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro | FOTO: Ierê Ferreira

Morreu o negro mais bonito do cinema brasileiro. Para além da beleza física que deu brilho a filmes como Compasso de Espera (1973), e telenovelas como Vidas em Conflito (1969), e sem deixar que essa beleza se tornasse um empecilho para si, Zózimo Bulbul foi um dos mais persistentes e criativos defensores de uma produção cinematográfica afro-brasileira. Foram traços marcantes do seu legado a rebeldia, a inquietação, a postura pan-africanista e a militância a favor da construção de uma identidade positiva do negro.Zózimo foi pioneiro no cinema assim como Abdias Nascimento foi no teatro. Ambos foram contestadores e visionários para sua época. É possível ver uma continuidade entre a obra cinematográfica e a ação artística e militante de Zózimo Bulbul com a herança deixada pelo também falecido senador Abdias do Nascimento, criador do Teatro Experimental Negro (TEN) nos anos de 1940. Foram metas comuns aos dois denunciar o falso mito da democracia racial, combater a discriminação contra o negro e promover sua autoestima. É o que podemos ver tanto na obra dramatúrgica e plástica de Abdias Nascimento quanto nos filmes de Zózimo Bulbul.

Destacamos os seus clássicos: Alma no Olho, um curta experimental e vanguardista sobre a identidade do negro, realizado em 1974, e depois o histórico documentário Abolição, de 1988, que refletiu sobre os 100 anos de abolição e registrou para a posteridade as imagens e o pensamento dos mais importantes personagens do movimento negro brasileiro na segunda metade dos anos de 1980.

A paixão pela África e a busca da construção de pontes e laços duradouros entre artistas africanos e brasileiros foram também características comuns a estes dois artistas e militantes. E, por fim, a preocupação em ajudar na formação de novos artistas negros, aspecto central do TEN que renasceu nos Encontros de Cinema e nas atividades educativas voltadas para novos realizadores cinematográficos. Essas atividades são desenvolvidas pelo Centro Afro-Carioca criado por Zózimo Bulbul em parceria com sua esposa, Biza Viana.

Eu, que tive a sorte de ter o Zózimo Bulbul no elenco de Filhas do Vento, senti uma dupla tristeza com a morte dos dois que ocorreu em menos de um ano, que imagino ser comum à maioria dos afro-brasileiros amantes das artes. Mas, orgulhosamente, também compartilho a alegria de ser parte de uma geração que teve os queridos Zózimo e Abdias como amigos e como exemplos.
Quer ver esta e outras matérias da revista? Compre esta edição número 176.

Comentários

Comentários