Mama África, não! Mundele

 

Hoje é dia de feira. Dirigi-me aos meus vendedores ambulantes, que, ao mostrarem os produtos, falavam ao mesmo tempo. E eu, baratinada – não só pelas muitas vozes, mas também por não dominar lingala, falado em Kinshasa; e por ainda estar em curso meu francês com sotaque estrangeiro.

Ao discutir valores para fazer valer meus francos congoleses, ouvi diversas justificativas. Na verdade, o preço para estrangeiros é sempre diferente!

Avistei uma senhora envolta em coloridos tecidos africanos, bacia plástica cheia de abacaxis enormes, que exalavam um cheiro adocicado. Quase seis dólares (dezoito reais) a peça. É caro, disse eu! Ela não gostou e me retrucou: Mundele!Senti-me insultada. Despedi-me dos outros feirantes e a deixei com seus abacaxis de seis dólares.

Mas levei comigo a palavra ecoando na mente. Sondado o significado com amigos congoleses,veio a explicação: referia-se a pessoas de cultura ou com hábitos ocidentais – e de cor branca! Ali estava explícito que, apesar de minha cor preta, eu não tinha mentalidade africana, mas de branca, de ocidental: “não é das nossas”.

TEXTO 2 MUNDELE

Discriminação xenofóbica jamais imaginada por mim, em se tratando um país africano. A revelação jogou por terra o ideal brasileiro de Mama África. E mostrou-me o afastamento entre pretos africanos e pretos brasileiros. Ressalto que, entre si,os congoleses não são iguais; e, por isso, nem todos discriminam os estrangeiros.

A novidade foi um pouco decepcionante, pois, na condição preta brasileira, sempre interessei-me pelos tais laços que uniam o Brasil aos países africanos. Ao chegar à RDC, veio a denúncia de que, em nós, de pele preta, só existia a aparência de africanos. E olhe lá! Na verdade, não passamos de mundeles – isto, é, de não pares, para alguns.

É ainda estranho ver que pretos – brasileiros e africanos – são mais diferentes entre si do que o ensinam os nossos cursos de História da África no Brasil. Mais distintos do que defendem os discursos dos movimentos negros. Ou, ainda: mais distanciados do que, no Brasil, ano após ano, é projetada a vontade de pertencimento às origens africanas. Após colocar os pés na terra da Mama África, fui apresentada à Mama Desmistificação, o que julgo essencial e positivo. Hoje, com visão ampliada sobre nossas relações étnicas, culturais e sociais com o continente africano, concluo que nem somos assim tão parecidos. Nem, muito menos, tão aceitos – cá – como eu imaginava.

Para os congoleses, meu sotaque é ocidental. Outros acreditam que somos africanos que aprenderam a ser ocidentais.

Ao descobrirem-me preta – não africana, mas brasileira – intitulada por eles mundele, decidi sempre explicar um pouco da História do Brasil, de sua composição étnica e, ao final da fala, cantar Clementina de Jesus, para minha alma acariciar: “Eu não sou daqui, marinheiro só, eu sou da Bahia, de São Salvador.” Avante!

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

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