Como surgiu o interesse pela carreira diplomática?
Comecei a pensar nesta carreira com 14, 15 anos de idade, foi aquele momento que tínhamos que decidir na escola o que fazer, na minha época era assim, você tinha que decidir entre científico e clássico. Eu estudava em escola pública e fui buscar uma carreira que pudesse atender as minhas expectativas e me pareceu que esta era a mais indicada. Sabia que era uma prova difícil, uma coisa complicada, sobretudo por exigir o conhecimento de idiomas e eu não tinha e nem havia perspectivas de morar ou de estudar no exterior.

 

E nesse momento tão importante, a senhora teve o apoio da família?
Sim e foi fundamental! Sou de uma família de classe média, meu pai era professor de filosofia, minha mãe administradora e funcionária pública, enfim, assalariados. Busquei essa profissão, essa carreira, para ter condições de estudar porque havia essa possibilidade de auxílio se você passasse no concurso. Na época eu estudava no Rio de Janeiro. Não tinha conhecido nenhum diplomata (risos), mas comecei a me interessar pelo trabalho que eles faziam. Mas para isso o apoio do meu pai e de minha mãe foi tudo porque a carreira de diplomata é boa, mas a dificuldade é muito grande também.

 

Qual o principal obstáculo que um jovem negro pode ter para ingressar na carreira diplomática?
O obstáculo que você pode encontrar é que tem que estudar muito e, para isso, você tem que ter condições para passar todo o tempo voltado para o estudo. Você não pode ter um trabalho ou outra coisa que divida o seu tempo, tem que viver para estudar, qualquer coisa que pense além do estudo será um obstáculo. Tem que estar preparado pois a concorrência é grande, são poucas vagas. No último concurso se escreveram por volta de 15.000 candidatos e tínhamos quarenta vagas, ou seja, uma vaga para quase 400 candidatos. É um concurso muito disputado.

 

Em que momento a senhora se deparou com a questão racial?
Como já disse, venho de família de classe média com pais trabalhadores que conseguiram estudar e seguirem carreiras universitárias com muita dificuldade e criar os cinco filhos. Nós sempre vivemos em ambiente de escola e faculdades públicas, onde era comum, no Rio de Janeiro de mais de 30 anos atrás, você encontrar negros, mestiços e brancos. Nunca tinha sido vítima direta do racismo. Na minha consciência não havia o problema real. Sempre achei que era fácil, uma questão de tempo, tinha comunidade negra mais pobre porque as pessoas não haviam herdado nada, os negros no Brasil herdaram o véu da escravidão e os brancos herdaram terras etc. Pensava que com o tempo isso mudaria. Mas ao participar de um grupo aqui em Brasília, tive uma mudança radical no meu olhar para a questão racial.

 

 Que grupo foi esse?
Era o GTI, um grupo de valorização para as populações negras criado pelo governo passado no qual eu fiz parte. Passei a interagir com lideranças do governo e do movimento negro de todo o Brasil, comecei a ver que, se não houvesse um movimento negro forte e com uma militância tão atuante como a que estava conhecendo, talvez a gente nunca pudesse chegar nesse mundo que sempre foi o meu e que eu achei normal por muito tempo.

 

Ou seja: só o caminho natural para se trilhar teria que continuar sendo à exceção da exceção?
Sim, para chegar mais rápido precisávamos realmente exigir e para mim naquele momento, depoimentos como o da professora Zélia, que me deu aula na faculdade, falando sobre os problemas de autoestima das crianças negras que sequer tinham bonecas negras no mercado, e vários outros depoimentos dos integrantes daquele grupo foram me tocando para coisas que eu nunca havia observado. Foi muito bom esse meu período no grupo, conheci pessoas maravilhosas como o Carlos e Gloria Moura, Lurdinha, Zélia, Abigail, Vovô do Yle Ayê, João Jorge do Olodum, Hélio Santos... Enfim, pessoas batalhadoras que acabaram me mostrando a importância da política do negro em movimento. Passei a ser uma defensora dos programas de ações afirmativas.

 

A representação do Brasil no exterior é quase inteiramente branca, são raros os negros num cargo de embaixadora ou cônsul.
A representação negra do Brasil no Congresso também é quase inexistente, na Justiça idem, na direção das grandes empresas a mesma coisa, e por aí se vai... O Itamaraty é apenas um reflexo da nossa exclusão em todas as áreas de ponta desta sociedade. Acredito que isso só vai começar a mudar quando a nossa representação no Congresso começar a mudar também. Isso só depende do nosso voto. É uma questão de tempo numa democracia, eu sou democrata e eu acho que é por aí. Acredito que a forma de fazer mais rápido é estimular, mostrar que não há problemas que não possamos resolver. Uma outra questão é que nem todo mundo quer ser diplomata. Tem muita gente que entra e depois desiste também por causa da família, tem que estar acostumado a abandonar os seus familiares, amigos. Existem muitos problemas, além de toda aquela dedicação e investimento no estudo no qual já falei, ou seja, é uma carreira dura.

 

A parte mais dura, quando se é diplomata são realmente as mudanças?
Com certeza. Tenho 32 anos de carreira diplomática, meu primeiro percurso foi em Roma, depois eu fui para Moscou (na época ainda União Soviética) por 4 anos. Voltei ao Brasil e trabalhei aqui no Itamaraty e, por ser muito requisitada, servi À Presidência da República. Voltei para Roma porque eu tinha casado e não aguentava mais ficar em ponte aérea ( ). Faz 26 anos que estou casada, temos duas filhas, uma com 20 e outra com 18 anos, mas para manter a família unida com tantas mudanças não é fácil, tem que ter a cabeça um pouco diferente. Tenho 26 anos de casamento, sete deles de ponte aérea. Hoje, meu marido está aqui comigo, mas nem sempre foi assim. Estive também em Paris por 5 anos.

 

A Venezuela tem um ministro exclusivamente de relações com o continente africano. Como é nossa relação com a África?
O principal ponto da política externa do presidente Lula, conduzido pelo ministro Celso Amorim é a África. Temos um departamento muito importante aqui no ministério só para isso, agora sempre foi muito importante para o Itamaraty essa relação, ao contrário do que algumas pessoas falam, mas evidentemente ganhou um impulso muito grande com o governo do presidente Lula, que abriu mais embaixadas na África. Temos embaixadas na maior parte do continente africano, o serviço dos embaixadores naquele continente foi muito valorizado, inclusive, seus salários são superiores que os dos colegas que estão em postos maiores como Europa, Estados Unidos e América do Sul. Esses embaixadores na África são privilegiados no momento da promoção, todo esse investimento já pode ser sentido: a África hoje é nosso quarto maior parceiro comercial, os dados são muito fortes, os números altos falam por si só, mas também existe no Itamaraty a visão da importância do ponto de vista político, econômico e cultural. A formação do Brasil, a identidade cultural brasileira não existe sem a África e isso foi muito valorizado nesse governo.

 

Há um interesse muito grande de empreendedores afro-brasileiros em se relacionar com africanos, dado os laços – inclusive culturais – com o continente. Como isso pode ser dinamizado?
Nós temos um departamento exclusivo para a África, uma área somente para produção comercial que engloba muitas missões chefiadas tanto pelo Ministro Celso Amorim como pelo Ministro Miguel Jorge, este direcionado a empresários brasileiros de toda ordem, não só negros, temos várias missões. Eu mesma estive nessa última. Fomos com o ministro em quatro países e levamos 23 empresários que tomaram contato com todo tipo de oportunidade e de interesse. Para as pessoas que tiverem interesses específicos, não faltará informação aqui no ministério, tanto no departamento da África, que pode dar elementos mais detalhados sobre a área, como para o departamento comercial para se cadastrar e receber informações permanentes.

 

Fale um pouco do programa de Ação Afirmativa no Itamaraty.
É uma parceria entre o Ministério das Relações Exteriores e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nesse projeto são oferecidas bolsas de estudo para afro-descendentes que desejam se preparar para o concurso de admissão à carreira diplomática. Desde 2002, quando começou a financiar o programa, o Itamaraty forneceu mais de 100 bolsas, cada uma de R$ 25 mil. Vários bolsistas já conseguiram ser admitidos no difícil concurso do Instituto Rio Branco. A seleção dos bolsistas é realizada anualmente pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe), em duas etapas: provas objetivas e discursivas e uma entrevista técnica. A banca não observa apenas a cor da pele no momento da entrevista, mas também a identidade racial do candidato, ou seja, avaliam o quanto a negritude influencia a sua vida. Esse programa é considerado um dos melhores resultados em termos de Ação Afirmativa no Brasil e está começando a mudar a cara da diplomacia brasileira.

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