Domínio Publico

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Ao desembarcar no Aeroporto de N´djili, na cidade de Kinshasa, na República Democrática do Congo (RDC), um jovem de saudação gentil nos ofereceu auxílio para carregar nossos volumes. Detalhe: ele não nos permitia tocar no carrinho, a menos que dele acompanhado. Após a intervenção de meu esposo, conseguimos quebrar o monopólio do candidato a ajudante.

Em seguida, homens de terno, elegantes, insistiram em revistar nossas malas, pois, em se tratando de voos provenientes do Brasil, aquele era o procedimento da imigração congolesa. Resolvemos a tal querela e nos dirigimos para a fila da esteira eletrônica.

Momento esteira finalizado com êxito. Entretanto, ao sairmos, avistei um grupo de homens, numa média de vinte ou mais, vindo em nossa direção; tocavam nossas malas, ao dizerem: bonjour (bom dia em francês). A ocasião era estressante, com aqueles homens falando alto e, ao mesmo tempo em que solicitavam, lutavam, entre si, por nossas bagagens. De repente, ouvi meu esposo dizer: tê, tê! E mais um prolongado "tê" aborrecido que em lingala significa: nãooo!

Na verdade, toda aquela confusão era parte do processo de concorrência de trabalhadores informais, os quais disputavam gorjetas. Quaisquer quinhentos cents para ajudar no sustento diário de suas famílias em um país cujo custo de vida é altíssimo.

Em dias de chuva a relação comercial é pior. No lugar das malas, os trabalhadores braçais levam pessoas carregadas nas costas evitando que molhem seus pés, já que as ruas ficam alagadas de água e lama. Hábito que remonta séculos atrás quando escravos levavam seus senhores suspensos em liteiras, fruto de trabalho obrigatório. Hoje, na República Democrática do Congo, essa é uma maneira de ganhar alguns trocados.

Percebi que de uma forma ou de outra, apesar de muitos negarem a existência da escravidão nos dias atuais, esses fatos revelam o poder da tendência escravista que ainda disfarçada vem se perpetuando nos embalos do capitalismo ao redor do mundo.

Numa feira livre, popularmente chamada “Zando” em RDC, não é diferente. Após um comprador saltar do carro ou transporte público, os mesmos homens carregadores acompanham incessantemente os clientes, oferecendo-lhes serviços de guia - já que a feira é imensa - e/ou de carregamento de suas compras.

Como um estrangeiro em RDC poderia conscientizar os nacionais de que isto na verdade não passa de trabalho escravo? Seria correto, exacerbação ou intromissão na cultura alheia? Talvez alguns entendam como um trabalho normal já que precisam suprir suas necessidades básicas. Então, qual seria o problema? Essas são perguntas que sempre surgem...

Aprendi com a experiência do aeroporto, o quão importante era a palavra “tê”. É também a minha forma de combater a perpetuação do trabalho escravo em RDC ainda que os congoleses não tenham a mesma percepção. Tê, tê, mil vezes tê ao trabalho escravo!

jamile cerqueiraJamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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