Confira a segunda parte da entrevista com Janete Pietá

 

TEXTO: Redação | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

"O movimento negro tem que ser um movimento que vai para a periferia, que dialoga" | FOTO: Divulgação

"O movimento negro tem que ser um movimento que vai para a periferia, que dialoga" | FOTO: Divulgação

Leia a primeira parte da entrevista com Janete Pietá.

A senhora tem uma atuação grande na questão racial, é a primeira mulher negra deputada federal por São Paulo. Por que isso não costuma ser pontuado?

Tem uma frase da Benedita da Silva que expressa bem a situação, ela disse: “Tem nego mais nego que você, mas você está sempre junto e é mais assumida que muitos outros negros” (sic). É duro dizer, mas tem sindicalistas que me questionam quando falo sobre a importância do movimento negro dizendo que não sou negra. Minha família é misturada, eu sou mestiça e assumo minha negritude, enquanto alguns negros não assumem. No entanto, alguns movimentos consideram negro somente quem é preto. Por exemplo, eu articulei o Estatuto da Igualdade Racial, mas se não fosse a minha participação ativa, perderia espaço. Veja, eu tenho sempre repassado verbas para as mulheres negras, isso é algo concreto. Não tenho um discurso elitista e nem acadêmico, apesar de ter feito faculdade. Eu falo diretamente para a população negra e quero que eles me entendam. Em Guarulhos, mais de 90% das mulheres do Bolsa Família são negras.

O genocídio do negro no Brasil é uma realidade. Como seu mandato tem trabalhado esse tema?

Pois é, tenho repassado verba para o programa Juventude Viva, é uma pena que são burocráticos demais. Repassei verba para o primeiro encontro municipal aqui da cidade, tenho atuado também na capoeira. Há brancos, mas a maioria são negros. E em relação à juventude hip hop, eu sempre acompanho a nossa equipe de trabalho, sempre procuramos espaços para esses grupos de periferia e negros. Para esses artistas que não estão na mídia, criamos o “Filma Nóis Aí”, é um programa que possibilita aos jovens um suporte neste início de carreira. Nós estamos investindo em infraestrutura para que eles tenham um espaço para gravar suas músicas, para exercer a sua arte, seja grafite, poesia, música ou dança. O hip hop é um movimento completo, e aqui não é americanizado, tem a ginga do brasileiro.

 

O congresso tem recebido muitas críticas. Como é ser mulher negra e levantar essas bandeiras em um espaço tão criticado?

Antes de ter a experiência legislativa, fui gestora municipal. Para mim isso foi muito importante, porque eu já sabia o que precisava resolver primeiro e as dificuldades que enfrentaria. Como implantei o Bolsa Família, sabia da importância de defender isso. Fui pra lá já sabendo de alguns problemas, como a conclusão da Jacu Pêssego, que veio até a Ayrton Senna. Por ser arquiteta, tenho essa facilidade, e tive outra vivência importante que foi a questão do orçamento participativo, nele o povo reivindica o que quer e a prefeitura repassa uma parte da verba municipal para fazer os projetos mais votados.

Em relação às outras bandeiras politicas, como temsido a defesa?

A disputa das questões da mulher e do negro é até mais simples para mim. Fui para a Câmara com objetivos concretos: primeiro, a defesa da cidade de Guarulhos, que é a segunda cidade do estado. Precisa ampliar o Bolsa Família, ampliar a política para as mulheres, ampliar a política para os negros e as emendas, porque não adianta falar de defesa disso ou daquilo se não houver escrita na LDO (Lei das Diretrizes Orçamentárias) e rubrica no orçamento. É importante trazer emendas na área da saúde e para infraestrutura da cidade também. Até bom esclarecer que nunca fui vereadora. Eu não gosto que as pessoas falem isso. Como implantei coisas na cidade, eles queriam me dar esse título, mas sempre rejeitei. Eu não cheguei lá disputando tudo, eu cheguei vendo, aprendendo, indo para a Comissão dos Direitos Humanos. E ai eu fui construindo a política.

Você representa as mulheres e os negros, a maior parte da população. Sendo você a única mulher negra no parlamento, frente aos homens brancos que dominam, como você acha que essas classes podem avançar no campo político?

Em primeiro lugar, considero que o movimento negro tem que ser um movimento que vai para a periferia, que dialoga. Eleição precisa de dinheiro, precisa de pessoas que acreditem, que ouçam as propostas de verdade, e não só as criticas. Eu fui líder sindical, depois líder no movimento de habitação e participei de programas sociais importantes na prefeitura, como disse anteriormente. Nós precisamos ganhar a alma e o coração das massas. Infelizmente, quem não está na periferia não entende a importância de um Bolsa Família, que não é só distribuição de verbas. Acho que o movimento tem que lutar por bandeiras maiores, porque nós somos realmente discriminados. Dia desses fui a um encontro regional de mulheres negras e uma moça falou: “Seu lugar não é aqui, aqui é somente para deputados”. Eu, com essa trancinha, não podia ser deputada, não é? Por isso estou investindo na Marcha das Mulheres Negras. Nós temos verbas para realizá-la ano que vem e queremos criar uma premiação para a Mulher Negra, com o nome de “Claudia”, em homenagem à moça que foi assassinada de forma brutal pela polícia do Rio de Janeiro. E tem o FIES, que tem beneficiado enormemente a juventude negra. Nós precisamos entender que a política tem possibilitado a ascensão dos negros, claro que nem todos terão essa visão. Além da saúde, estou investindo em cultura, na construção da memória negra com o movimento “Filma Nóis Ai!”. Enfim, é um árduo trabalho, mas só com empenho e visão combateremos o racismo e ajudaremos na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

*Janete Pietá não conseguiu ser reeleita nas eleições de 2014

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