Veja trechos da entrevista concedida por Aguinado Timóteo à Raça Brasil

 

TEXTO: Maurício Pestana | FOTOS: Rafael Cusato | Adaptação web: David Pereira

Entrevista com o polêmico Aguinaldo Timóteo | FOTO: Rafael Cusato

Entrevista com o polêmico Aguinaldo Timóteo | FOTO: Rafael Cusato

É difícil traduzir em palavras o mineiro de Caratinga, Aguinaldo Timóteo. Músico, cantor romântico, político, irreverente, polêmico... Ele iniciou sua carreira artística em programas de calouro numa rádio em sua cidade natal, passou por Governador Valadares e Belo Horizonte e ficou conhecido como o “Cauby Mineiro”. No Rio de Janeiro, trabalhou como motorista da cantora Ângela Maria e continuou investindo forte na carreira e, em pouco tempo, se tornou nacionalmente conhecido pela sua voz. Ficou famoso ao gravar Meu Grito, de Roberto Carlos, e depois vieram outros sucessos como Ave-Maria, Mamãe e Verdes Campos. Aguinaldo gravou mais de 50 discos.

Em 1982, levou sua irreverência para a política quando se filiou ao PDT e foi eleito como o deputado federal mais votado da história do Rio de Janeiro, com mais de 500 mil votos. Teve divergências com Leonel Brizola, se transferiu parao PDS, perdeu a disputa para o governo do estado em 1986, foi reeleito deputado federal em 1994 e vereador em 1996. Em 2005, já em São Paulo, chegou à Câmara Municipal pelo Partido Progressista (PP), se transferiu para o Partido Liberal (PL) e, atualmente, está no Partido da República (PR).

Suas posições políticas são polêmicas. Sua visão sobre a questão racial, também. Tanto que, no início dessa entrevista, Aguinaldo, bem ao seu estilo, fez algumas colocações sobre a revista RAÇA BRASIL. “Antes de mais nada, quero dizer que é um prazer estar falando para essa revista, que sempre me discriminou por nunca terem me procurado, porque a minha idade me dá embasamento para algumas audácias e, dentre elas, a de pensar. Eu não permito que o William Bonner, Carlos Nascimento, Ricardo Boechat me digam o que eu devo dizer ou o que devo pensar. Eu penso.” Veja trechos da entrevista com Aguinaldo Timóteo.

Como foi a sua infância?

Eu saí de casa com seis anos, e trabalho desde os oito. Estudei aquilo que crianças pobres fazem: bolinho de carne, pastel de carne, banana, manga. Lavar os automóveis de Caratinga, trabalhar no açougue, no restaurante... Até que meu pai me colocou no DNER, aos 14 anos, para ser um fantástico torneiro mecânico. Sem nenhuma modéstia, um monstro de torneiro mecânico, eu era apaixonado pelo que fazia e manipulava o mecômetro, paquímetro e outras ferramentas da pressão com absoluta segurança, por adorar aquilo que estava fazendo.

"Eu não quer ser simpático, eu quero ser Aguinaldo Timóteo" | FOTO: Rafael Cusato

"Eu não quer ser simpático, eu quero ser Aguinaldo Timóteo" | FOTO: Rafael Cusato

Quem o introduziu na política foi o ex-governador Leonel Brizola?

Não! Eu nunca me imaginei dentro do mundo político. Certa vez, assistindo ao programa O Povo na TV – que era fortíssimo na época, comandado pelo Ailton Franco – vi que todos os candidatos massacravam Leonel Brizola. A Sandra Cavalcanti com 54% de ibope, Milton Teixeira tinha 30%. Não sei quanto o Leonel estava, acho que uns 6%. Peguei o telefone do Ailton Franco, entrei no ar e disse uma porção de desaforos para as pessoas que estavam hostilizando Brizola que, a partir de agora, ele passaria a ter 10%, por que eu iria me candidatar a deputado federal e ter trezentos mil votos. Mas foi uma gargalhada só, foi como se eu tivesse contando uma piada num auditório e para os políticos (risos). Como aconteceu com o Tiririca. Imaginava que ele teria duzentos mil votos, e não, teve um milhão e trezentos votos. Eu tive quinhentos e três mil votos de um eleitorado de seis milhões de votos de cabo a rabo no papel.

Bem, o senhor transita na política há tantos anos e com visões tão peculiares de direita e esquerda. Por que é tão difícil ver negros nesse campo?

Por que nós não nos acreditamos, temos vergonha de nós mesmos. Todo jogador que se consagra do dia para a noite, negro, não permite que uma negra seja famosa e milionária, tem que ser uma loira, ele carrega aquela loira como um troféu numa imperdoável demonstração de complexo de inferioridade. Eu tenho amor por todos os nossos irmãos, tenho um colega chamado Carlos Apolinário que diz: “Agnaldo, não existe raça negra e nem raça branca, existe raça humana”, e parece que nós, os negros, não entendemos o que poderemos ser, quando quisermos.

É favorável ou contra as cotas no Brasil?

Eu tenho pavor disso, essa é a maior demonstração de preconceito que possamos ter no Brasil. O que nos impede de ter 50% de espaço? Você que se prepare, que conquiste para ser vitorioso. Ele que é branco, tira nota nove e fica fora? Só se deve dar espaço a quem queira vencer na vida, a quem luta pelo seu espaço na vida.

Algo mais que desejaria falar?

Só dizer para todos os seus colegas da revista que eu tinha uma profunda tristeza por não haver recebido da Revista RAÇA BRASIL nenhuma oportunidade de mostrar como eu sou. Não me queira como um farsante, demagogo ou mentiroso, que faz qualquer coisa para que as pessoas me achem simpático. Eu não quero ser simpático, eu quero ser Aguinaldo Timóteo!

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