Luiz Antônio Leite de Moura, natural de Piracicaba, líder comunitário mais conhecido como Madalena, se tornou o primeiro travesti eleito vereador na história do município. Madalena, que sempre chamou a atenção por andar pelas ruas usando roupas e acessórios femininos, foi o segundo candidato mais votado do PSDB à vereança na cidade. Nesta entrevista à Raça Brasil, o vereador fala sobre família, exclusão social, superação e a discriminação que o acompanhou por toda vida e que se intensificou, chegando a ameaças de morte, quando resolveu entrar na política. “Quero daqui alguns anos disputar a prefeitura da cidade para ajudar os mais pobres”, declara.

 

Você sempre lembra da sua mãe como referência e enaltece o apoio que ela te deu desde criança. Quais barreiras você enfrentou na infância?
Sim, ela foi muito importante na minha vida, pois me apoiava em tudo. Já o meu padrasto era contra, ele brigava muito com a minha mãe por eu ser quem eu era. Ele dizia que eu era esquisito, que eu usava lencinho na cabeça, tamanquinho, avental, me batia, e minha mãe me defendia e por isso apanhava também. Desde os meus 13 anos, ela trabalhava e me levava junto, então eu aprendi muita coisa com ela.

 

Você falou da sua mãe e do padrasto. Chegou conhecer seu pai biológico?
Não! E pior, perdi minha mãe também muito cedo. Inácio de Moura era seu nome, sempre tive muita vontade de conhecê-lo, mas nunca tive a oportunidade. Um dia eu conheci um parente meu, que morava perto da minha casa, o Carlinhos, e ele que disse pra mim que eu tinha um pai, uma irmã, só que não moravam em Piracicaba. Então ele fez com que eu conhecesse minha irmã na casa dele, ela se parecia comigo, nós nos abraçamos, choramos, ela me contou sobre o meu pai. Ele faleceu antes da gente ser apresentado, porém minha irmã ainda é viva, mora em um sítio, e o Carlinhos está tentando pegar o endereço dela para eu poder me aproximar. Minha vida foi muito difícil quando eu perdi minha mãe, a família se distanciou e eu acabei sozinho.

 

Quantos anos você tinha quando a perdeu?
Se não me engano, tinha 15 para 16 anos. Quando ela faleceu, uma irmã foi morar com uma família, a outra com outra família. Sofri muito, foi quando eu comecei a conhecer a vida de verdade.

 

O que lhe deu forças para continuar sem o apoio materno?
Sou muito católico, eu ia até a missa do Bom Jesus, que era às 18h, chegava sozinho, assistia ela inteira e depois deitava no banco e dormia até o outro dia, quando começava a outra missa, e vinha uma mulher com um copo de leite e um pão com manteiga e dizia: “Menino, você dormiu aqui!”. E eu sempre despistava. Dormia em tantos lugares... Mas sempre pedindo a Deus para me dar forças, Graças a ele e a Nossa Senhora Aparecida continuo com muita força.

 

E como você saiu das ruas e mudou de vida?
O primeiro quartinho que eu morei foi num bairro chamado Coreia, em Paulicéia. Era todo de tábua e eu dormia em uma cama feita de jornal, meu guarda roupa era uma cordinha, onde eu pendurava as minhas coisas, e tinha uma coberta. Tinha também um cantinho onde eu esquentava leite e comia pão, era só isso. Com 16 anos eu comecei a limpar casas, limpava uma a cada dia, e todos queriam que eu limpasse. A primeira casa que eu comecei a trabalhar mensalmente foi a da dona Marta Penezi, ela me ensinou muita coisa, me deu um casarão para eu poder morar e lá eu fui crescendo, até que comecei a pagar aluguel em uma casa de dois cômodos. Comecei a ter contato com o prefeito na época, o João Erman, e ficamos amigos. Eu levava rosas para ele e um dia lhe pedi um terreno, e ganhei. Porém, mesmo com o terreno, eu ainda pagava aluguel, não tinha dinheiro para construir uma casa. Com o tempo, guardei dinheiro e fui comprando as coisas aos poucos. Hoje tenho uma casa bem feita, onde moro há 25 anos, no bairro da Boa Esperança. Ergui toda a minha vida lá, atualmente sou presidente da Associação Amigos de Bairro.

 

A discriminação racial e a homofobia é mais intensa em cidades pequenas?
Sim, a discriminação foi algo que me acompanhou desde que eu me conheço por gente, porém sempre levantei a cabeça. Em qualquer lugar que eu ia as pessoas falavam que eu era isso ou aquilo, cochichavam e diziam para os filhos não se aproximarem de mim porque eu tinha “problema”. Sempre respeitei e mantive a cabeça erguida. Tenho vários sobrinhos e converso com eles abertamente, digo que sou tio, irmão da mãe deles, exijo respeito para também dar o mesmo em troca. Madalena é para as outras pessoas, para eles é tio. E a relação é muito boa, existe este respeito.

 

E na vida pública, quando resolveu se candidatar?
Quando fui realizar a minha campanha, não tinha dinheiro, eram cinco pessoas me ajudando. Passávamos fome, recebíamos ameaças de pessoas do partido, foi uma barbaridade. O partido prometeu muitas coisas para mim, e na hora eram apenas cinco placas e dois mil santinhos, enquanto para os outros eram 100 mil santinhos, faixas e tudo mais. O partido não queria que eu ganhasse de jeito nenhum, mas eu fui com raça e até gravei uma música do Martinho da Vila, que foi um sucesso em todo lugar e nós fomos em frente.
Apesar de tudo, sempre fiquei quieto, pois não sabia se iria ganhar ou não. Foi uma campanha limpa, sem dinheiro envolvido.

 

Você se sente mais discriminado por ser negro ou pela sua orientação sexual? Como é a sua relação com o movimento social negro?
Não sei se sou mais discriminado por ser homossexual ou negro, acredito que os dois. Com relação ao movimento negro, minha política é muito importante para eles, o meu gabinete é aberto á todos, não tem cor, é um lugar para todos entrarem, a porta fica aberta das 8 às 17h, eu atendo todo mundo. Não sou mais que ninguém, estou aprendendo com todos. E graças a Deus muitos têm me procurado, e outros ainda irão aparecer.

 

São Paulo hoje realiza a maior parada gay do mundo, coloca todo ano mais de 3 milhões de pessoas nas ruas. Como é sua relação com o movimento LGBT?
Gostaria que eles me procurassem. Fui a São Paulo quatro vezes e vi muitas coisas tristes na Praça da Sé, crianças, mulheres, idosos, todos dormindo nas calçadas, eu fiquei desesperado. Acho que tem que ter um governo, um presidente para ajudar esses coitados, porque eles não estão na rua porque querem, eles estão assim porque a família não apoia, e eu sei o quão duro é morar na rua, porque eu já vivi isso.

 

Falando um pouco de política local, você é vereadora pelo PSDB. Como é a sua atuação na questão partidária?
O prefeito não é do meu partido, tem secretários que eu conheço na prefeitura que atendem muito bem, porém tem alguns de outros partidos que não atendem. Eu fico muito chateado com isso, porque se fosse outro secretário do partido deles, dariam atenção. Quando eu vejo que o secretário não quer me atender, vou direto ao prefeito. Aliás, devo dizer que tenho uma boa relação com ele, estamos fazendo um trabalho muito bom.

 

Tem mais vereadores negros em Piracicaba?
Creio que uns quatro. Tem o presidente João Manuel, muito gente fina, eu, e uns mais morenos que não sei se são negros, ou melhor, não sei se eles próprios se consideram negros.

 

E travesti?
Sou o único da história do Brasil.

 

Os últimos ataques racistas que você sofreu repercutiram na imprensa nacional. Essa discriminação mais violenta se deu antes de você ser eleito ou depois?
A primeira ameaça foi na minha campanha, disseram que se eu ganhasse a eleição arrumariam alguém para me matar. A pessoa que me ameaçava era do mesmo partido que eu, e ainda disse que não teria coragem de acabar comigo, porém contrataria alguém para fazer isso. Quem me contou é um amigo de confiança, e foi minha testemunha quando eu fiz a denúncia. Quando eu colocava a minha placa na avenida, ele ia lá e quebrava a placa, e eu não sabia disso, mas quem via me contava. Foi muito triste.

 

Como se sentiu quando foi eleito?
É importante lhe explicar todo o processo: eu pensei que não iria ganhar, fiquei em casa sem ligar tv, rádio, nada. Era o meu vizinho da frente, que estava com o rádio ligado para saber quem iria ganhar, que me falava com quantos votos eu estava, mas eu nem ligava, até que cheguei a 3 mil votos e ele soltou um rojão e disse que eu ia ganhar. Pouco depois, foi até minha casa anunciar que eu tinha ganhado, aí a minha rua lotou de pessoas para me dar os parabéns, e eu fiquei muito feliz, porque foi uma eleição muito boa, eu não paguei para ninguém. Durante a minha campanha o partido havia me prometido 10 carros, e não me deram nada, deram 15 litros de gasolina para 10 carros, não tinha como fazer nada. Eu arranjei 50 pessoas para me ajudarem, mas não tinha dinheiro para pagá-las e acabei dispensando todas.

 

Voltando aos ataques violentos que você sofreu, fiquei chocado com as imagens de discriminação. Como foi que aquilo chegou até você?
Eu não sabia no começo. O marido da minha sobrinha mexe muito na internet e viu, contou a ela, que ligou para o chefe de gabinete para informar, e eles decidiram me contar. Eu já estava com o problema da minha doença, que graças a Deus tem melhorado, e quando eles me contaram eu fiquei arrasado. Na hora que eu vi aquilo, para mim acabou tudo, eu não queria mais saber de nada, apesar de todos terem dado força. Mandei ligar para um advogado e fiquei muito chateado.

 

Localizaram quem fez isso?
Já, ela foi me procurar e me pedir perdão, mas meu chefe de gabinete está indo atrás disso, o processo está na delegacia.

 

Um dos maus que acometem com regularidade os homens negros é o câncer de próstata. Sei que é um assunto delicado e difícil. Como tem sido enfrentar esse problema?
Eu sempre vou ao médico fazer exames de sangue, urina, aids, e nunca deu nada. Na última vez que eu fui realizar um exame, o doutor disse que havia um problema e que eu teria que fazer um tratamento. Então comecei o tratamento durante 60 dias tomando comprimido, quando voltei, não tinha diminuído o problema, pelo contrário, tinha aumentado. Agora, nos últimos dias eu fiz um último exame e vou pegar o resultado no fim deste mês, pra ver como esta. Mas com fé em Deus não será necessário operar.

 

Você se declara muito cristão, o que acha da “cura gay” do deputado Feliciano, que também é do interior de São Paulo?
Ou ele é louco, ou doente, ou não tem o que falar, porque as pessoas gays já são assim desde crianças. Eu já conheci gente que largou da mulher por causa da sexualidade. Acredito que a pessoa já nasce gay.

 

Você conhece alguém que era assumidamente homossexual e depois virou heterossexual?
Conheço gente com dinheiro que cansou dessa vida. Mas eu acho que tem que se assumir, quem somos nós para julgarmos o próximo? Só que, uma vez assumido, é preciso aguentar até o fim. Eu tenho um colega que gosta de sair com homens e mulheres, eu sou contra.

 

E qual sua perspectiva futura agora que você entrou na política?
Daqui a 4 anos saio candidato a vereador novamente, e depois de mais 4 anos quero disputar a prefeitura da cidade para ajudar os mais pobres.

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