Acompanhe a segunda parte da entrevista com Ronaldo Barros sobre a igualdade racial nas universidades

 

TEXTO: Redação | FOTO: Thuanne Maria | Adaptação web: David Pereira

"Tem algo nas políticas afirmativas que a gente discute, que é a justiça social. Todo o debate que foi feito no país sobre o tema ficou concentrado numa justiça sócio racial historicamente constituída, mas tem outro lado que não se discute, que é das políticas afirmativas enquanto projeto de nação" | FOTO: Thuanne Maria

"Tem algo nas políticas afirmativas que a gente discute, que é a justiça social. Todo o debate que foi feito no país sobre o tema ficou concentrado numa justiça sócio racial historicamente constituída, mas tem outro lado que não se discute, que é das políticas afirmativas enquanto projeto de nação" | FOTO: Thuanne Maria

Leia aqui a primeira parte da matéria.

Quantos cursos a UFRB tem?

Estamos chegando a quase 50 cursos, nós temos uma universidade que é organizada de forma temática. Em Amargosa, temos o Centro de Formação de Professores, com 8 cursos. Temos o mestrado em Educação no campo, que é uma das nossas preocupações, já que lá existe uma presença significativa de quilombolas. Para você ter uma ideia, nos cursos de graduação e de pós-graduação, nós temos uma taxa de quilombolas superior à nacional, são 50 quilombolas em um curso de graduação, ou seja, quase duas vezes mais do que a média nacional das outras universidades. Em Santo Antônio, temos o centro Ciência e Saúde, que oferece medicina, psicologia, nutrição, enfermagem e farmácia. Aqui, em Rio das Almas, nós temos os cursos na área das ciências agrárias, ambientais e biológicas.

Uma das coisas que se discute nas palestras sobre a questão racial e a educação é que o negro não está muito presente nas exatas e na medicina. Quais são os cursos que os negros não procuram?

Aqui temos a maioria absoluta de negros também nesses cursos, não só pela política de ingresso da 12.711. A UFRB já reservava 50% das vagas para escolas públicas e 85% dessas vagas eram para aqueles que se declaravam pretos ou pardos. A presença é maciça nesses cursos, tanto os cursos com o status mais significativo, quanto os cursos das áreas de agrárias e de exatas. O curioso é que nas áreas de exatas, na UFRB, o desempenho dos cotistas é muito superior aos de ampla concorrência, isso é extremamente significativo, porque o senso comum tende a achar que os negros não entravam nesses cursos porque tinham menos capacidade, sobretudo na barreira da língua e na barreira das chamadas ciências formais, as ciência exatas.

Minha última pergunta é sobre um comentário que você fez em relação a investimento no aluno. Queria que você falasse mais sobre o retorno positivo que o país pode ter com as universidades investindo na carreira do aluno. 

Tem algo nas políticas afirmativas que a gente discute, que é a justiça social. Todo o debate que foi feito no país sobre o tema ficou concentrado numa justiça sócio racial historicamente constituída, mas tem outro lado que não se discute, que é das políticas afirmativas enquanto projeto de nação, um projeto que permite a uma classe desfavorecida ter acesso à universidade. Contando o caráter da redistribuição de renda e da formação econômica desse país, nós temos, em primeiro lugar, uma situação de janela demográfica. Se nós não fizermos esse processo de inclusão agora, nesse processo demográfico, ou seja, quando um país tem mais jovens do que velhos, vamos perder a oportunidade desses jovens contribuírem para a estabilização social desse país. Isso ocorreu com os países da Ásia e da Europa.

Uma pessoa que vai para a universidade, passa por um processo de valorização de renda que pode chegar a 40%. A educação dá a oportunidade de ascensão social – o que é importantíssimo para a população brasileira. Sem esse processo, há um enorme desperdício econômico e de talento. Muitos continuam ganhando pouco, e poucos ganhando muito.

A universidade é um espaço que também permite gestação de relações de negócios e que gera líderes para o país. Esquecer a população que não tem acesso é deixar para trás possíveis dirigentes que não puderam se qualificar. Em resumo, vale a pena investir em políticas afirmativas, porque o país ganha com isso. As nossas universidades não tiveram ainda destaques mundiais, nós não ganhamos prêmio Nobel, mas em contrapartida, na arte, na literatura e no futebol somos referências. Ainda assim, quem sabe as políticas afirmativas tragam ganhos na área acadêmica também? Elas não são só para os negros, é um projeto para o Brasil. O caráter da educação anteriormente estabelecido provocou um mal gigantesco nesse país e está enterrando o desenvolvimento. As políticas afirmativas estão relacionadas à redistribuição da riqueza.

O que ficou bem marcado pra mim foi o caráter econômico, acho que foi o ponto central das suas considerações. Mas é uma visão que acaba com essa história do paternalismo. A gente sempre fala de uma reparação, mas me parece mais do que isso, é uma questão de inteligência... 

Perfeito, é um projeto de nação que só ajuda ao país, ajuda a todos, não é exclusivamente a uma pessoa ou a um grupo privilegiado. É um processo de ajuda mútua que pode mudar esse país definitivamente, que pode gerar um salto de qualidade no futuro. Acredito nessa política, que infelizmente é pouco conhecida, pouco discutida. Fica em um debate raso sobre meritocracia e justiça sócio racial, mas não são só essas as esferas em questão, há outros elementos que são mais agudos que estão em jogo.
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