O sofrer de banzo é uma doença milenar que os navios negreiros já traziam nas águas do Atlântico para o Brasil. Fora das embarcações, alguns africanos e seus cônjuges de outras etnias ou nacionalidades continuam sendo aterrorizados por sentimento próximo, fruto de imposições tribais que definem o futuro de muitos, quando a questão é relacionamento entre pessoas de origens diferentes.
foto Linhagem
A fidelidade étnica é um assunto severo nos países africanos. A República Democrática do Congo possui quase 450 tribos, as quais são subdivididas em inúmeros grupos étnicos. Os bantos (mais de 60 grupos), os sudânicos centrais, os nilotas, os camitas, os pigmeus; e por aí segue.
De fato, a comunidade africana vem controlando a formação das novas famílias como os europeus e o Brasil faziam tempos atrás, para a preservação do poder. Em momentos de disputa política, a dança entre tribos na África destitui e constitui a voz de comando; mas se tenta evitar as vias de casamento intertribal.
Par romântico tem de ser dentro das cercanias da mesma linhagem; caso contrário, será julgado por pessoas detentoras de saber considerado superior; que apresentarão outras opções de noivos, como primos, etc. Em se tratando de famílias do interior do país, o processo se tornará mais inflexível. É rara a aceitação de casamento intertribal. Se o casal discordar da decisão, não receberá qualquer apoio mas críticas e abandono familiar.
O sentimento de banzo não influenciará em nada, exceto no comportamento de loucos amantes que se revoltam e fogem de seus vilarejos para viverem sua história longe das reprovações alheias.
Outros são vencidos pelos familiares e se casam forçadamente. Constroem famílias em clima de infelicidade: numerosos filhos nascerão; o casal continuará distante; mas tudo em nome das tradições. Não importa a religião! Doenças psicossomáticas são desenvolvidas, ainda que escondidas nos sorrisos das fotos do enlace matrimonial, frutos da arte do disfarce.
No caso de casamento entre africano e estrangeira, a situação é elevada a um nível superior: xenofobia. É intolerável, para a maioria das famílias tradicionais africanas, o casamento de pessoas de nacionalidades distintas. Mas existem exceções, graças a Deus.
O que ela tem que nossas africanas não têm? Interrogam-se. Se filhos não vierem, isso só reforçará a prévia desaprovação familiar! Se a esposa for mais velha do que o marido, o enlace será duplamente insano. Assim, essa estrangeira será rejeitada pela sociedade; e precisará de bastante jogo de cintura e inteligência emocional para preservar seu casamento de intrigas externas, permanecer agradável e, sobretudo, saudável.
 Se o par estrangeiro for homem, a depender da nacionalidade, o casamento nunca acontecerá, pois a coerção do progenitor sobre a mocinha é ditatorial. O homem que ajeite suas emoções a posteriori. E o amor? Que amor que nada, linhagem vem primeiro!

20170321_103200Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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