Veja o perfil da romancista angolana Isabel Ferreira

 

TEXTO e FOTO: Natanael Joaquim | Adaptação web: David Pereira

A escritora angolana Isabel Ferreira | FOTO: Natanael Joaquim

A escritora angolana Isabel Ferreira | FOTO: Natanael Joaquim

A angolana Isabel Ferreira é uma mulher de fibra e poderia ter trilhado diversos caminhos. Sua trajetória de vida mostra que fez as melhores escolhas, pois, como veremos adiante, ela foi capaz de se reinventar, superar obstáculos e seguir em frente sem olhar para o passado. A história de vida da escritora é cheia de altos e baixos e idas e vindas, mas ela, com seu talento e a sua doçura, soube persistir e alcançar o sucesso. Filha de pais separados, foi criada em um orfanato e só conheceu os pais na adolescência. “Eu não quero que os meus filhos e nem os meus netos passem pelo que passei na infância e na adolescência. Não sou a dona da verdade e tenho as minhas inseguranças, mas desejo do fundo do coração que cresçam em um lar feliz e cheio de amor”, revela, emocionada. “Eu queria atenção, amor, carinho, e não conheci esses sentimentos na família. Todos os sonhos de uma menina de 15 anos foram deixados de lado enquanto estive no orfanato. Tive que trabalhar muito até dar o meu grito de independência e sair à luta”, lembra. Até então, Isabel não conhecia literatura.

Ao se aproximar de pessoas que sabiam ler e escrever, aprendeu e despertou seu talento para a escrita. Os conhecimentos desenvolvidos ajudaram a esclarecer algumas questões que a incomodavam profundamente. “Eu sei a que vim porque quis mudar a minha vida. Hoje, após tantos anos, vejo os pais com seus filhos pelas ruas, de mãos dadas, e meus olhos se enchem de lágrimas. Tudo que quero é cuidar bem da minha família, como não cuidaram de mim”.

Luta por Angola

Ainda jovem, Isabela defendeu os valores e costumes de sua pátria. Passou por treinamentos de guerra para enfrentar a repressão do governo enquanto lutava como guerrilheira. “Fui uma das milhares de angolanas a ir para as Fábulas, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola. Homens e mulheres se alistavam por um ideal, para lutar por uma vida melhor, mesmo sem saber o destino”, conta. A luta daqueles tempos a fez entender sentimentos como liberdade, amor e perdão, temas que permeiam o seu trabalho literário. Hoje, a sua frente de combate é a literatura. Por meio das palavras escritas, Isabel enaltece a cultura angolana. “Uma casa precisa ter pão e leite, é o essencial. Sem fome, a criança poderá tirar o melhor da leitura, poderá descrever as suas sensações e sentir a escrita também”, afirma. Isabel se tornou palestrante de Angola para o mundo e leva sua mensagem de paz e igualdade. Já esteve em vários estados brasileiros e recebeu prêmios por sua trajetória. Apesar das viagens e experiências, ela confessa: “Eu sou uma formiguinha literária. Eu costumo dizer que dentro de cada um de nós temos que acreditar que tudo é possível. Confesso, estive em muitos lugares, mas só me encontrei em mim mesma”.

Entre as suas obras, a mais famosa é “Guardador de Memórias”, livro cujos contos são baseados no desabafo de mulheres angolanas descontentes com o seu mundo sentimental e social. Também mostra um pouco da história do país e busca reforços na língua kimbundo para clarificar algumas ideias. “A obra nos deixa rir, mas também faz refletir, através da visão dos personagens, em relação a Luanda, ao meio ambiente, passando pela educação, tradição e o modo de estar dos políticos na cidade luandense”, explica a escritora. Editado pela Kujizakuami, o livro, que é uma ficção, tem no prólogo a letra da música “Um assobio meu”, de autoria do músico Alberto Teta Lando. A obra contém 330 paginas e já foi lançada em diversos países, inclusive no Brasil.

 

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