Quando se fala na liderança feminina no candomblé, nomes como Iyá Nassô, Iyá Detá e Iyá Kalá são sempre lembrados. Essas mulheres, africanas corajosas, trazidas para o Brasil na época da escravidão, se reuniam ao culto aos seus orixás contra tudo e contra todos

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Nos séculos de cativeiro, elas eram princesas antes de serem escravizadas e enviadas ao nosso país. Tiveram de se utilizar de mil artifícios para conseguir processar a sua fé e, por meio delas, são recontadas histórias de crenças, perseguições e culto dos orixás que resistem ao tempo e ao preconceito. Com os anos, outras dessas mulheres de fibra surgiram no cenário nacional, principalmente na Bahia, entre elas Mãe Aninha, Mãe Senhora e Mãe Menininha do Gantois. Carregando hoje o bastão e responsabilidade está Mãe Stella de Oxóssi, a maior Yalorixá do Brasil. Nascida em Salvador, em 2 de março de 1925, se formou na Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia, com especialização em Saúde Pública e exerceu a profissão por mais de 30 anos. Mãe Stella foi a primeira Yalorixá de um terreiro tradicional a combater o sincretismo religioso com a igreja católica. Desde que assumiu o Ilê Axé Opó Afonjá, em 1975, a casa religiosa transformou-se numa universidade da cultura afro-baiana, tanto que, em 1980, foi fundado por lá o Museu Ohun Lailai, o primeiro de um terreiro de candomblé. Com o mundo acadêmico mais próximo, passou a fazer conferências pelo País e em universidades americanas e inglesas, além de escrever livros sobre o tema. Em entrevista exclusiva, Mãe Stella (autoridade máxima do candomblé no Brasil) fala dos desafios da religião e de sua experiência à frente do Ilê Axé Opó Afonjá, que está prestes a completar 100 anos.

 

O Ilê Axé Opó Afonjá vai completar 100 anos. Qual o maior desafio para o candomblé nos dias de hoje?
Sem a menor dúvida o maior desafio nos dias de hoje é se manter forte e firme, em uma só corrente, superando todas as adversidades e as nossas diferenças, e nos disponibilizando apenas ao nosso princípio, que é o de servir, superando tudo pela nossa fé e determinação.

 

Para uma religião com grandes mistérios, como é conviver com algo passado muitas vezes de forma oral, sentindo na pele a manifestação do orixá em um mundo cada vez mais tecnológico, influenciando diretamente a comunicação, que tem na linha de frente a internet?
Isso é outro desafio, porque essas coisas são tentadoras, a globalização trouxe avanços, mas também a necessidade de sermos mais vigilantes, mais responsáveis na questão espiritual. No candomblé nós passamos o que deve ser passado, mesmo porque, as coisas que não são passadas com axé não têm importância nenhuma, não têm valor nenhum, logo, temos a responsabilidade de só passar o que devemos passar de forma verdadeira. E eu garanto: axé não se passa via internet e nem nunca se passará.

 

Há quase dez anos estive aqui, acompanhando o ministro da cultura, Francisco Belfort, no ato de tombamento do axé como um patrimônio histórico. O que isso influenciou ou melhorou a vida do Axé Opó Afonjá?
Felizmente ficamos livres da especulação imobiliária dos invasores e até mesmo de alguns de nossos filhos, com ideias de remodelação que pudessem chocar com o patrimônio que nós já temos e fazemos força de mantermos da maneira em que Mãe Aninha nos deixou. Melhoramos, limpamos, mas a nossa essência tem de ser a mesma. O tombamento foi válido por isso, temos a certeza hoje da preservação de nossa memória e de nosso axé!

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Hoje presenciei de manhã um culto muito bonito: o Amalá de Ogum, o qual muito me emocionou e cuja maioria das pessoas não era negra. Mas já presenciei cultos de religiões, por exemplo, evangélicas, em que a maioria dos adeptos era negra. Com isso, a questão racial está desvinculada da questão religiosa?
Está sim. Em toda vida eu ouvi essa repressão, essa coisa de divisão de raça. E a minha religião, o candomblé, é a que enfatizava mais isso! Só branco poderia fazer parte de determinadas instituições religiosas, mas do candomblé, não! Engano, o candomblé aceita todos que queiram, porque o divino não tem preferência de cor ou raça, ele quer o coração de cada um e a doação de si que é o mais importante. O candomblé é a religião que mais integrou gente, independentemente de cor, procedência ou orientação sexual. Aqui recebemos e respeitamos todos: brancos, pretos, mulatos, japoneses, alemães ou americanos. Seja qual for a sua natureza ou orientação sexual, o que vale para nós é o coração e a doação de si. Aqui é um lugar de doação.

 

Na atualidade, há um número excessivo de religiões pregando o paraíso de forma rápida e convincente. A salvação virou quase que um negócio para praticantes de diversas religiões. Como a senhora vê isso?
Eu chamo essa coisa de sinal dos tempos. Pelo número que a população do planeta aumentou, evoluiu, as pessoas se tornaram mais aptas à leitura e a certas práticas. Ficou mais fácil para qualquer pessoa que tenha alguma crença dominar algumas informações e se aproveitar da carência do outro, negociando a fé, e isso acontece em todas as religiões, em qualquer lado.

 

Acontece no candomblé?
Sim, muitos deles caem aqui, fazendo oferendas, fazendo pedidos, e às vezes até de forma velada. Quando é assim, eu faço força para não atender, embora fuja do meu princípio de não atender as pessoas. Mas aqueles que querem ter um mediatismo – onde se consegue e se faz promessa – e um orixá como sagrado, não vamos ganhar. Nós vamos para pedir pela fé e conseguir pelo merecimento.

 

O axé é frequentado por muitos artistas de todo o País, até do exterior. Também consultam com a senhora políticos influentes, mas porque poucas pessoas da vida pública se assumem como sendo do candomblé?
Isso para mim é ter uma personalidade fraca, porque a pessoa deve assumir a sua prática. Eu faço isso e assumo que sou isso, eu frequento tal lugar e assumo que frequento tal lugar, mas às vezes pela ambição de reconhecimento e status, as pessoas abafam sua crença, embora precisem muito, mas abafam! Eu não apoio, mas como o orixá é sagrado ele está aqui para atender a todos que precisam dele.

 

Como é que a senhora vê os ataques frequentes à nossa religião, ora pelos meios de comunicação, ora de forma física mesmo... Eu sei que até o próprio orixá já sofreu disso...
Uma coisa que eu apenas peço ao sagrado para nós é que nos dê força e condição, porque essas pessoas não são nem dignas de registro. Para mim essas pessoas não existem, não há ser humano que tenha a capacidade de pensar como ser evoluído, e isso é barbarismo, é loucura. Então, eu peço apenas no pé do orixá que dê seguimento a eles, inteligência e condição para seguir o caminho, sem rebaixar os outros.

 

Há muito tempo o candomblé ganhou a academia. São centenas de teses de mestrado, doutorado e outros estudos sobre a religião. Existe também quem considere até uma forma filosófica de vida. Qual a sua opinião sobre isso?
Infelizmente, há muita gente que adora aproveitar do símbolo alheio. Nós temos os nossos símbolos e lutamos há milênios com eles, que têm nos segurado. Logo, não apoiamos quem usa os nossos símbolos para ganhar dinheiro, fazer carreira, sucesso ou propagandas das nossas práticas, porém, tem muito trabalho sério que deve e precisa ser apoiado.

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