No meio da noite, acordei assustada com o som inédito da voz do imã – líder religioso muçulmano – convidando os fiéis para fazer a oração. Era audível por todo o bairro. Mesmo quem não é muçulmano, acaba acordando, pois o som emitido na torre da mesquita se propaga com facilidade. E mais: as mesquitas chamam quase que ao mesmo tempo, numa distância muito próxima uma da outra. Confesso que, na hora, perdi o sono; e demorei uns dias para me acostumar.

Este hábito – segundo os muçulmanos sudaneses – vem desde os tempos do profeta Mohammed. Assim, aconselho sempre aos viajantes a inteirarem-se com os costumes do país a ser visitado, para auxiliar o processo de adaptação.

Muhammad Ahmad, O Madhi

No Sudão, como deve ser nos outros países islâmicos, no momento da oração, todo o país para cinco vezes, seja dia ou noite, para atender as prioridades religiosas.

Numa madrugada, vi alguns homens com jelaba – vestido longo masculino, em árabe – andando ao encontro da mesquita mais próxima, para cumprir suas obrigações religiosas.

Em época de Ramadam – momento de reflexão espiritual – o funcionamento do comércio concentra-se a partir da noite. Nesses dias, o melhor é fazer compras com antecedência.

Lembro-me da primeira vez em que estava entrando em um supermercado, e de ter visto os funcionários do lado de fora, ajoelhados sobre tapetes; e em posição idêntica, fazendo suas orações. Aguardei 10 minutos e, então, pude ser atendida e comprar minhas mercadorias. Cenário que se repete diariamente.

O respeito à religião islâmica no Sudão vai além da diferença das tribos; e, com isso, diria mais: o Islã parece ter sido um grande símbolo religioso de combate à dominação de europeus sobre africanos nas bandas de lá. Não foi à toa o crescente número de conversões nos tempos onde a modernização britânica se espalhava pelo Egito e pretendia colonizar o Sudão. Mas foi duramente barrada pelo seu redentor: Muhammad Ahmad. Através da religião, ele rechaçou toda possibilidade de colonização/imperialismo com tons de ocidentalização na terra dos faraós sudaneses pretos. O líder da revolta Madhista impediu que o expert general Gordon dominasse o Sudão.

Filosofia parecida foi adotada em Salvador, em 1835: a revolta dos Malês, onde muçulmanos africanos lutaram para libertar seus pares escravizados, e para obter o domínio do governo soteropolitano, através da instauração de uma monarquia islâmica. Ideologia bastante diferente daquela das coroas europeias que pouco se importavam com os africanos escravizados.

Vale aqui a reflexão: e se cada religião existente no Brasil começasse a combater o racismo como os malês e Mohammad Ahmad combateram as ondas imperialistas? Conseguiríamos uma sociedade mais normal e igualitária? Existem algumas organizações não governamentais ou religiosas que acabam por defender mais suas crenças do que a ideia de se juntarem todas no combate ao racismo. Será que nos falta um Madhi?

 

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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