Durante a produção da coleção para a Black Fashion Week Paris em 2015, passamos a debater as implicações éticas para materialização das nossas idéias. Uma vez que trabalhamos com moda numa perspectiva feminista e antirracista, sempre discutimos na equipe a importância de problematizar as relações de poder, e sabíamos que seria delicado interferir no cotidiano das comunidades quilombolas sem elaborar uma contrapartida. Nesse campo profissional as posturas autoritárias e segregacionistas são comuns e, cientes disso, decidimos pensar como envolver as mulheres residentes dos quilombos.

Making off do Edudoc Moda.Devir. Fotografia: Andreza Pires

Making off do Edudoc Moda.Devir.
Fotografia: Andreza Pires

Em meio à confecção da coleção, o cineasta Cláudio Manoel propôs a gravação de um vídeo documentário, o Edudoc Moda.Devir, que registra algumas elaborações sobre metodologia do projeto em design de moda e suas implicações sociais. Fizemos uma “vaquinha” nas redes sociais para viabilizar o deslocamento até o quilombo, aluguel de equipamento e alimentação de uma equipe de mais de 30 pessoas e, nessa fase de captação informal de recursos, mais gente interessada em apoiar o projeto se integrou à equipe: Lu Pires, uma designer de calçados que elaborou em uma semana três modelos exclusivos feitos à mão; o diretor de fotografia Gleydson Públio, responsável pela gravação e edição do documentário e, na fotografia, contamos com  Virgínia Gomes, Andreza Pires e Álvaro Ricardo.

Com a possibilidade de execução de dois trabalhos simultâneos, visitamos, antes da nossa imersão, algumas escolas públicas da região para convidar dez meninas dos Quilombos de Santiago do Iguape e do Tabuleiro da Vitória para atuar como modelos. Nos dividimos em duas equipes, em Santiago do Iguape ficava a nossa base, uma pousada que a líder comunitária Pan Batista conseguiu como apoio para nos acomodar, e do Tabuleiro da Vitória a outra representante, Alda Brito, se deslocou com as adolescentes que participariam do vídeo. As meninas chegaram tímidas e parte da equipe de produção começou a maquiá-las, foram colocando os turbantes, calçando os sapatos para ensaiar as passadas e retribuindo por meio do cuidado e do embelezamento, todo o acolhimento de quem nos recepcionou. Perto dali, a 15 minutos de carro, em São Francisco do Paraguaçu, a outra parte da equipe trabalhava para materializar as propostas da Coleção Vozes.

Seis meses depois das gravações, fizemos a primeira exibição do documentário no Quilombo Santiago do Iguape, para um grupo reunido na Associação Artística e Cultural do Iguape e, no dia seguinte, lançamos no Quilombo Tabuleiro da Vitória para uma platéia um pouco maior. A produção local contou com a ação mobilizadora das lideranças da Associação de Mulheres do Quilombo Tabuleiro da Vitória e suas representantes, Maria de Totó e Alda Brito, que passaram a noite cozinhando, a lenha, uma feijoada para nos receber e comemorar com as modelos e suas famílias.

Foi com lágrimas nos olhos e a voz embargada que aplaudimos o lançamento do Edudoc Moda.Devir. Ao final, Maria de Totó resumiu sua trajetória de vida com emoção: - “Hoje eu tenho 58 anos, fui marisqueira, pescadora, saí da comunidade aos 13 anos por falta de oportunidade, ainda analfabeta, e fui trabalhar em casa de família na capital. Aprendi a ler aos 26 anos, antes disso só sabia escrever meu nome. Terminei a escola e depois não parei mais de estudar. Fiz magistério, curso técnico de enfermagem, estudei Filosofia na faculdade e me formei professora. Para mudar minha história, era noite e dia estudando.... Fiz pós-graduação e antes de terminar, entrei na faculdade de Direito e hoje sou advogada! Me emociono contando a minha história porque nunca pensei em ver a beleza das meninas da minha comunidade sendo valorizada dessa maneira. Na minha época isso era impossível, espero que vocês possam a partir daqui, transformar a vida de vocês com muito estudo também. ”

O edudoc é um net vídeo que foi produzido para ser usado livremente em eventos, escolas e redes digitais. Com trilha sonora original produzida pelo dj Angelis Sanctus e as compositoras Laila Rosa e Neila Kadhí, o projeto de circulação internacional da ‘Coleção VOZES: Moda e Ancestralidades’ passou por Paris, Chicago e em Salvador o lançamento aconteceu na Saladearte Cinema do Museu. No mesmo ano o edudoc foi apresentado pelo diretor, Cláudio Manoel, no evento “Curta Moda”, na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió – AL e no Centro Cultural Iwalewa Haus, University of Bayreuth, Bayreuth, Alemanha.

Para conhecer o vídeo, assista:

Carol Barreto Foto Helemozão 3CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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