Te soa estranha a palavra afrodescendente? Cunhada para justificar o consenso em torno do que representasse a população de ascendência africana no mundo, a expressão carimbou emergencialmente a vida dos cidadãos pretos, sem definir o público "alvo" do racismo. Ainda que a motivação fosse a de criar políticas públicas específicas. Todos os dias me pergunto se a causa maior foi a cor.
Por questões de definição, poderíamos ter adotado o preto de forma imediata; e excluir o pardo, o moreno, o mulato, o afrodescendente e – até mesmo – o negro. O termo preto é indiscutível.
FOTO Na medida da afrodescendencia
Dentro de um salão de beleza, percebi africanas pretas com partes do corpo clareadas por meio de cosméticos, tendo por resultado final bochechas rosadas, cinzentas; ou, até, queimadas artificialmente.
Hitler ali pregando a política de higiene racial; Getúlio Vargas daqui incentivando a política de branqueamento; e alguns países africanos acolá incentivando a alteração de cor de seus nacionais.
Sabe-se que os mecanismos das Nações Unidas de combate à discriminação, ao racismo, à intolerância e à xenofobia são indiscutivelmente válidos. Porém, inenarravelmente insuficientes para impedir a propagação daquelas práticas.
Ainda neste século, em terras africanas, sigo ouvindo expressões como: “barriga branca”, junção de casal interracial, cujo descendente adquire uma coloração com menos melanina; ou mentalidade mundele, quando o comportamento é considerado "de branco", mas a cor não; ou ainda: "sou preta mas quero clarear", etc.
Como se não bastasse, sou surpreendida pela luta sobre o direito de utilização de turbante. É a insistente cultura afrodescendente do Brasil que desconhece a realidade dos países africanos, onde moda é mudar para perucas de fios lisos; ou encontrar cabelos não crespos brasileiros para confeccionar longos apliques. Estamos desconexos?
Africanos de todas as classes sociais comem com as mãos – e isto não é privilégio de rituais religiosos em África. A questão continua, pois estou entre eles. E comendo de talher. Seria a afrodescendência indo pelo ralo?
A influência africana está presente nas panelas baianas, cheias de dendê; assim como a chinesa no Brasil, pois  consumimos arroz em todo território nacional. Mas não somos chamados de sinodescendentes, nem muito menos lusodescendentes por comermos feijoada. Presencio a mesma tendência no uso de instrumentos de percussão, hoje adaptados; ou mesmo nas danças assemelhadas ao jeito africano. O "afro" está na transmissão de tons de pele, até que sofrem a mestiçagem; o que nos faz – mais uma vez – brasileiros pretos. E não afrodescendentes.
Sigo analisando o custo x benefício da afrodescendência. E me perguntando: até quando teremos de sustentar esta nomenclatura pelo simples fato de que, nem no Brasil, nem nos países africanos a palavra “preto” é aceita.
Celebro antecipadamente que o Brasil esteja vivendo uma grande oportunidade de ser pioneiro na construção da identidade do preto nacional.
Se assim for, poderíamos espalhar a tendência para outros países onde a intolerância de cor tomou espaço, tendo, então, a possibilidade real de migramos da condição de seguidores, para sermos referência, esquecendo – de uma vez por todas – a ideia de afrodescendência sem medida; termo usado, por vezes, para justificar a criação de políticas públicas; ou sustentar qualquer outro interesse que pouco tem em comum com nossas aspirações e com aquilo que, de fato, somos.

20170321_103200Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

Comentários

Comentários