Coleção Asè, por Helemozão. Modelo: Carla Akotirene.

A moda ocupa um importante lugar na produção dos corpos e consequentemente das subjetividades! Na atualidade as referências da cultura negra e afro-brasileira têm sido “inspiração” recorrente na maioria das passarelas e marcas comerciais. Os turbantes estão em alta e geram polêmica sobre apropriação cultural, as estampas “étnicas” são, cada vez mais, transformadas digitalmente em nome de um “conceito” e vendem massivamente; as tranças e as técnicas de cuidados de cabelos crespos e cacheados reúnem cada vez mais pessoas nas redes sociais...  Este é um avanço pelo qual lutamos por muito tempo e, mesmo nessa época, ímpar em termos de ascensão das imagens de negritude, o que ainda incomoda? Nossos corpos ainda não importam e a grande maioria das modelos, atrizes e web-celebridades que desfilam, atuam ou são fotografadas portando nossos elementos culturais, ainda reproduzem o padrão hegemônico: são brancas, magras, altas, cisgênero e heterossexuais.

Geralmente são os eventos de moda dos quais participo, como convidada, que definem o casting, o grupo de modelos contratadas para desfilar e, no Brasil, geralmente, não tenho a mínima possibilidade de opinar sobre os tipos físicos das modelos. Sempre faço a exigência de que as modelos sejam negras, não muito magras, mas nem sempre é possível materializar o pedido por diversas justificativas da organização. Só consegui construir passarelas majoritariamente negras, nos eventos organizados pela minha equipe ou nos eventos internacionais, que inclusive contratam modelos maiores, para as quais costuramos as roupas no manequim 42, diferentemente do padrão de tamanho 36 da passarela brasileira.

Antes de pensar na aparência do casting, é também necessário questionar e reconstruir a tabela antropométrica vigente. A tabela de medidas que se replica na modelagem e gera padrões variados, para cada país, pode mudar a depender da visibilidade que determinadas marcas possuem e que acabam impondo um padrão internacional. Vale pensar que também é parte da luta antirracista na moda a alteração das medidas, para que vistam pessoas mais reais, e o corpo das mulheres negras é muito mais curvilíneo do que das caucasianas. É bem recente e perceptível, a redução nessa tabela antropométrica, por exemplo, quando se vai experimentar uma calça número 44 numa loja e mesmo que vista tamanho 40 ela pode não caber em você. As marcas pequenas geralmente não possuem capital para refazer essa tabela, pois isso também pressupõe um estudo de laboratório, uma pesquisa científica para reconstruir a tabela vigente, materializá-la em peças piloto e assim produzir eventos onde seja possível a contratação de modelos que contribuam à essa desconstrução.

Com o passar do tempo e as mudanças nos polos mundiais de confecção de vestuário, os produtos começaram a diminuir, em termos de tamanho, para economizar o uso de tecido e consequentemente inserir a magreza como forma de construção individual. O lema “eu quero ser magra” alimenta uma indústria enorme, não apenas nesse ramo, mas especialmente no campo da saúde, fitness e beleza, definindo um padrão estreito que se empreende no planejamento de coleção desde a etapa do projeto, desenvolvimento e confecção das peças, e assim, materializando nas nossas roupas, uma relação de poder produzida historicamente e de modo intencional, que incide na qualidade e na expectativa de vida de muitas pessoas: o racismo.

CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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