A Revista Raça lançou recentemente a campanha “Meu primeiro abuso policial”. O resultado foi simplesmente espantoso. Mais de 500 mil pessoas aderiram quase que imediatamente. Milhares de compartilhamentos espalharam-se pelas redes sociais.  Centenas de depoimentos chocantes vieram à tona  e um agudo e desconcertante debate se fez presente.

As histórias divulgadas apresentam de maneira nua e crua a ausência de cidadania para com o brasileiro comum, ainda mais se ele for preto e pobre.  Assim como, é visível a presença da doença que corrói a sociedade brasileira de há muito – o racismo.

Revelam ainda, de forma contundente, a contaminação do aparato de segurança do Estado brasileiro com a prática da discriminação, da violência e do racismo.  As denúncias são chocantes, a indignação maior ainda.

Em que pese o apoio maciço que a campanha vem obtendo, tanto nos meios de comunicação quanto na sociedade, revelando o quanto é grave o desrespeito e a violência policial no trato com a população negra no Brasil, não deixa de ser surpreendente o significativo número de pessoas que apoiam este tipo de comportamento.

É o Brasil doente, violento, racista e insensível se apresentando de forma desnuda para o Brasil cidadão. Neste sentido, não adianta o Brasil cidadão querer ignorar o Brasil doente, recusar esta faceta da nossa sociedade ou até mesmo desejar ignorá-la, pois ele além de estar presente no nosso dia a dia tem causado estragos permanentes.

Talvez aí esteja parte das explicações que estamos buscando para os não menos trágicos números revelados pela última pesquisa do Mapa da Violência no país.

São números avassaladores: 318 mil jovens mortos nos últimos 10 anos no país. Destes, 245 mil são pobres, negros e de baixa escolaridade. O extermínio da nossa juventude está escancarado e ao mesmo tempo naturalizado. Mobilização para alterar esta realidade, até o momento, só fora do país.

Muitos acreditam, ora por ingenuidade, ora por maldade que as vítimas são as culpadas. “Se foi abordada, sofreu violência ou foi assassinada é porque alguma coisa fez”. Portanto “vamos deixar de mimimi, vagabundos”. Estes são argumentos que temos encontrados regularmente para justificar a ação policial.

Mas, o que fazer com estas informações?  Como enfrentar esta situação?

Neste sentido, a Revista Raça apresenta um caminho: A Campanha - ‘Meu primeiro abuso policial” que busca muito mais do que revelar este quadro dantesco a partir das histórias pessoais. Busca em verdade mobilizar e sensibilizar os veículos de comunicação, as autoridades, as entidades dos direitos humanos e a sociedade brasileira em geral de que não podemos continuar inertes diante de tal flagelo. Precisamos reagir e contribuir para dar um basta nesta situação.

Todo e qualquer cidadão sabe que a presença e atuação das polícias nas sociedades contemporâneas, são mais que necessárias, são imprescindíveis. Elas representam a proteção do Estado ao cidadão comum, que para tanto paga e autoriza estas corporações a agirem em seu nome.

Portanto, não estamos advogando a supressão do aparato de segurança e a entrega da sociedade aos bandidos. O que desejamos e exigimos, é que esta  população que paga e autoriza estes serviços, seja tratada com respeito e a dignidade que merecem. Que não sejam discriminadas pela cor da sua pele ou pelo local onde moram. E que não sejam violentadas nos seus direitos enquanto cidadãos. E isto se chama cidadania.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

 

Zulu Araujo

Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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