Cape Town, cidade multicultural e costeira da África do Sul. Finalmente colocaria meus pés na terra do madiba Nelson Mandela, que significa “pai” na língua Xhosa.

A beleza natural: montanhas e costa Atlântica me chamaram atenção. O trânsito era inglês; jardins floridos; casas em tom pastel; porém, fechadas a cadeados e grades. Sentimento declarado de insegurança. Pessoas dentro de seus Carros e nos centros comerciais, em sua maioria: pele e olhos claros, cabelos lisos.

No Brasil, nos chamam de afrodescendentes. Daí a minha insistência para a adoção dos termos preto e preta. Portamos outras ascendências, que não a africana. O termo afrodescendente não é exclusivo dos ricos em melanina.

Nem todo africano é preto. Pelo menos as políticas públicas e suas ações afirmativas no Brasil não são tentativas de consertar as atrocidades sofridas por africanos brancos nos navios negreiros; pois, parece, não terem estes existido!

Apresentada à realidade de bairros de brancos, de pretos e de pessoas de cor ou coloridos, me perguntei: coloridos? Eram os mestiços.

Nesse clima vivo de apartheid, hospedei-me com meu esposo numa pousada de uma senhora considerada colorida. Recebemos as chaves de nosso quarto, localizado do lado de fora da casa principal. Cheguei até a questionar se não haveria acomodação no interior onde, curiosamente, havia hóspedes brancos e coloridos. De fato, nós e outro africano preto ocupamos os quartos da ala dos fundos.

Ao fechar o vidrilho do banheiro por onde passava uma corrente de ar frio, recebi uma reação inesperada da administradora que, descontente, justificou que aquele deveria ser mantido aberto, para a circulação do ar. Minutos mais tarde, nos trouxe um pequeno guia de regras; e pediu para o meu esposo me explicar que não era permitido fazer barulho.

No dia seguinte, enquanto circulava pela ala da frente, fui interceptada pela mesma senhora, que fez questão de dizer que não fazia qualquer discriminação entre pessoas: “recebi um hóspede nigeriano e perguntei para ele de forma sincera se sabia sobre a fama do seu povo. Mas percebi que ele era diferente; e, no fim, ele, de hóspede, tornou-se meu grande amigo” – disse ela.

Era a primeira vez que a tal senhora conhecia uma brasileira – e preta – no país do apartheid. Gostaria muito que fosse mais normal a presença da diáspora brasileira preta no exterior. Ajudaria bastante os processos de desmistificação.

Não esqueci de quando toquei a parede com minhas mãos; e de eu ter me questionado sobre tal erro, em voz alta. Lembro-me de sua reação: você tem noção destas coisas? Rindo tranquilamente, respondi que era uma questão de educação familiar; e dificilmente as paredes de minha casa necessitariam de pintura, se o motivo fosse serem tocadas por minhas mãos.

Apesar dos vinte sete anos de prisão de Mandela, os espaços entre brancos e pretos na África do Sul continuam se alargando, assim como o preconceito. Tudo continua setorizado, inclusive os empregos: maioria de proprietários brancos e funcionários pretos.

Um dia desses, um guardador de carros sul-africano me chamou de irmã e disse: gosto da forma como você caminha. Sua cabeça é diferenciadamente erguida. Eu agradeci sorrindo e disse: temos de ser assim!

Ah Mandela! Tive saudade também de Martin Luther King Junior quando me vi dentro dessa evolução de apartheid, da política que continua crescendo em força no seio das novas gerações sul-africanas. Triste antiapartheid sem Mandela. Triste antiaparteid sem Madiba.

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

 

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