Leia a coluna da cantora Margareth Menezes sobre as oportunidades do mercado voltado para a cultura afro-brasileira

 

TEXTO: Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco | Adaptação web: David Pereira

Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco

Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco

A cultura afro-brasileira tem uma grande possibilidade de mercado, um potencial financeiro latente e inexplorado que precisa ser visto com olhos mais benevolentes e espertos pelos produtores e empresas no Brasil. A nossa pirâmide social passa por um momento de profunda transformação no que diz respeito à ascensão do povo afro-brasileiro para melhores colocações no mercado de trabalho e no aumento de seu poder de consumo.

Essa melhora das oportunidades, sobretudo por parte da população que fica na base da pirâmide social, é muito real. Por mais que ainda existam pessoas desrespeitadas pela falta de acesso aos próprios direitos como cidadãos, não é mais possível negar os avanços e as transformações dos novos atores que ocupam lugares de destaque em postos de trabalho e de comando no Brasil. Nesse contexto de valorização constante, a televisão tem papel fundamental. Ferramenta moderna e potente de comunicação, ela promove o fortalecimento de uma identidade social e de integração e circulação da arte e da cultura no Brasil, além de ser a portadora e provocadora do mercado de entretenimento e do fomento à apresentação, circulação e apreciação dos objetos de consumo. Sabemos que as grandes redes de TV nacionais são empresas particulares que atendem, em primeiro plano, a seus interesses e aos de seus patrocinadores e anunciantes. Hoje, a televisão aberta no Brasil é usada como um grande shopping center para estimular a venda de produtos diversos, imagens humanas, sociais, materiais e, porque não dizer, espirituais. E é justamente daí que vem a sua renda. Dentro dessa realidade tão forte, somos nós, os telespectadores, o grande objeto de desejo dessas redes. Quero deixar claro aqui que adoro essa ferramenta incrível de fazer acontecer sonhos dentro das nossas casas.

A televisão é, definitivamente, um instrumento forte e eficaz para realizar as mais diversas revoluções. Mesmo com a internet, a TV ainda gera mais repercussão para os acontecimentos. No entanto, infelizmente, ainda é pequena a participação dos afro-brasileiros em canais e programas. É claro que já foram dados passos importantes e já podemos ver uma abertura, mas o que me move a falar sobre isso é que essa parcela ainda muito tímida que nos é reservada não condiz mais com a argumentação de que somos minoria, nem com a argumentação de que não existe espaço ou mercado. Muito pelo contrário, o mercado de consumo e o poder de rotatividade dos produtos que incluem o afro-brasileiro, de forma natural, como consumidor em potencial, como qualquer outro consumidor, gera uma reação positiva nos seus pares e nos pares daqueles que compartilham dessa mesma ideia de integração.

Na Bahia, por exemplo, no começo da exploração comercial do carnaval, a cor da pele ditava as seleções do público da grande maioria dos blocos de trio. Uma atitude separatista e discriminatória que era praticada aos olhos de todos, inclusive do poder público, que não tomava nenhuma providência porque se tratavam de empresas particulares. Por conta disso, nos anos 70, surgiram os blocos visando criar espaço para que o povo afro-baiano também tivesse acesso à festa. Esses blocos aproveitaram o carnaval para contar a história da África e dos seus heróis, e aquela atitude racista e antissocial antes praticada com o “apelo” de atrair “gente bonita” gerou certo distanciamento da massa, pois as pessoas não se identificavam e não procuravam esses blocos.

Com o passar do tempo, alguns quebraram essa prática. Uma grande transformação aconteceu no mercado e hoje os blocos de trio que foram criados com uma proposta mais acessível são também os que estão mais fortes. Os eventos que são feitos para o povão são também os que mais lotam. Por que será? Cito isso apenas como um exemplo de como o mercado perde por estabelecer critérios que já não correspondem tanto à realidade do potencial de consumo dessa parcela da população, que não é pequena. Acho que quando as grandes empresas atentarem para este fato e aprimorarem o direcionamento ao consumidor afrodescendente no Brasil, haverá um enorme fortalecimento de mercado.

Inclusive, esse despertar para o crescente potencial de consumo do povo afro-brasileiro já está fazendo muita gente ganhar dinheiro. É claro que estou falando de inclusão, mas não é nada demais vender produtos para pele negra ou mestiça e para cabelos crespos ou mistos, assim como roupas e acessórios com tendências e simbologias da cultura afro. Eu mesma vibro quando me vejo representada em uma propaganda. É como se fosse alguém me dizendo, “Ei, isso é para você também”. Compro, na hora!

 

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