A pele tem cheiro. Algumas pessoas exalam-no ainda que as não tenhamos visto. Odor individual poderoso que comunica muito mais do que os olhos podem ver. Opostos se atraem. Os iguais também querem-se tanto quanto, sem respeitarem as leis de polos positivo/negativo. Tudo é uma questão inexplicável de pele. Mas por que alguns resolvem acabar com a beleza dessas interações? E estabelecem valores discriminatórios e preconceituosos para esse diálogo tão natural? No final de tudo resta apenas: Quanto custam as peles no mercado mundi?

foto mulher preta linda

Domínio publico

Tenho observado – não só no Brasil, onde sofremos discriminação pelo tom de pele, mas também nos países africanos – o mesmo costume de diferenciação negativa, conforme a cor dos indivíduos. Pessoas tornam-se mais bonitas ou mais valorizadas quanto mais miscigenadas elas são; ou seja, quanto menos melanina, mais exaltadas são as qualidades e influência societal.

Tenho encontrado africanos que detestam sua cor preta; e imediatamente deificam a branca. Sem necessidade de justificar o absurdo, sigo assustada com o grau de ódio desses africanos que sentem-se feios(as) e assumem o fenótipo como uma praga que terão de carregar por toda vida. Pergunto sempre: até quando permitirão que a cruel colonização determine que o preto é ruim? E – pior – até quando aceitarão que a cor dos colonizadores brancos que dizimaram seus povos seja a única louvada?

Um dia, avistei uma garota congolesa de sete anos, fruto da junção de duas tribos diferentes. Assim que vi a bela princesa – fotocópia mirim e fidedigna da atriz Lupita Amondi Nyong'o, se não fosse a grande quantidade de melanina – dei um abraço e fiquei admirada pela sua beleza. Pele fina de criança, sem deformações cutâneas, extremamente hidratada e com um brilho fosco radiante! Quando indaguei à sua mãe, por ainda não conhecer a garotinha:

– É sua filha?

Então, recebi a seguinte resposta:

– É, mas ela é muito preta.

Fiquei tão decepcionada que engoli em silêncio; e, recobrado o fôlego, retruquei:

– Como pode dizer isso? Além de tudo você não consegue enxergar o quanto ela é linda? De resposta, recebi um sorriso infame e silencioso. Fiquei furiosa e fui para casa perturbada, por não aceitar qualquer justificativa.

Outro dia, fazendo compras, vi, no supermercado, um homem branco sexagenário, de olhos claros, junto com uma jovem africana, bela e preta. A relação era de predominância, não só financeira, mas – principalmente – da pele branca sobre a preta. Existia um preço a ser pago – apesar de distinto para ambos. Eu consegui até enxergar as correntes nos punhos e pés da jovem, como os da época da escravidão. Percebi seus pedidos de autorização para levar produtos; e a ignorância e arrogância do tal indivíduo que justificava em alta voz que ela não levaria o que quisesse. A situação ia chamando a atenção dos outros clientes. Esse tipo de cena nos faz refletir muito sobre as causas dessa persistente submissão que algumas pessoas se permitem. Graças a Deus que não são todas; mas continua existindo...

Meu consolo é perceber outras realidades que valorizam a interação entre peles como algo natural, agradável; e sem qualquer supremacia. De um poder intocável. Que de igual forma todos os tons de pele preta possam florescer, pois imensurável é o seu poder.  

jamile cerqueira

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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