Muitos se lembram do Nilo quando é contada a história do Egito antigo. De fato é um dos maiores rios do mundo, disputando com o Amazonas o título de mais extenso. Sua abrangente bacia hidrográfica perpassa alguns países africanos como Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi, Sudão, Sudão do Sul, Etiópia e Egito.

É formado pela junção dos Nilos Azul (Etiópia), Branco (Sudão) e também do Atbara (Etiópia), os quais, por fim, deságuam no mar Mediterrâneo. Essa área de confluência é bastante fértil, o que possibilitou comércio bilateral bem-sucedido entre Sudão e Brasil, nos cultivos de algodão e soja, desde 2009.

Pensador Sudanes no rio niloAs águas do Nilo balançam muitos barcos de pescadores que, em silêncio, vão à procura de peixes e trazem para a mesa uma alimentação sadia. Uma de minhas grandes experiências na região foi a de acompanhar a pesca noturna no Nilo; e comprar peixe fresco antes do amanhecer.

À beira do rio, na cidade de Khartoum, existem bombas d´água manuais que abastecem as cidades e comunidades locais permitindo a sobrevivência de pequenos agricultores e de seus rebanhos.

Neste momento crucial de escassez de água, fica evidente que há abundância desse recurso natural no continente africano – julgado por muitos como o mais pobre e mais faminto do mundo. Assim, é real seu potencial comercial que deverá alavancar o comércio de alimentos e a geração de energia para o continente e outros países como os do Oriente Médio.

Apesar de existirem trechos de calmaria, quando estamos próximos à confluência entre os Nilos Azul e Branco, a agitação das águas é característica, de forma a ser obrigatória a interrupção do passeio de barco, pois o motor não tem força suficiente para contrapor-se à correnteza. Essa agitação das águas me faz lembrar a situação não tão tranquila entre o Egito e a Etiópia após a construção da Grande Barragem Etíope de Renascença (GERD).

O Sudão é o terceiro braço dessa negociação, já que está ligado a esses dois países, histórica, politica ou comercialmente; e mais: com possibilidade de direcionar o futuro do continente e de parceiros comerciais.

Tempos atrás, o Egito desfrutava do direito de interromper qualquer atividade de irrigação ou geração energética no Rio Nilo. Mas com o cenário pós GERD, isso mudou; o que tem agitado a região com ameaças. O lado egípcio revela-se procupado, pois sua população é 100% abastecida pelo rio.

Enquanto não se tem previsão sobre os desdobramentos dessa corrida regional africana, o melhor mesmo é desfrutar do lado mais leve do Nilo, onde casais apaixonados seguem em cruzeiros ao som de músicas românticas sudanesas, saboreando a tilápia e o chá quente de hibiscus; ou o encontro de amigos para jogar cartas regados de chá lipton com leite e alguns tira-gostos, pois, na dança de interesses do que vem do Nilo e do que passa pelo Nilo, a verdade de tudo é como dizia vovó: farinha pouca, meu pirão primeiro!

jamile cerqueiraJamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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