Nesta matéria, conheça o trabalho da artista plástica Lídia Lisboa

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Fábio Guinalz | Adaptação web: David Pereira

A artista plástica Lídia Lisboa | FOTO: Fábio Guinalz

A artista plástica Lídia Lisboa | FOTO: Fábio Guinalz

O trabalho da artista plástica Lídia Lisboa: Seja como artista plástica – cerâmica, pinturas, crochês de pedaços de tecidos, com miçangas, colares de botões –, como atriz, modelo vivo, ou realizando performances, não há comparativos entre o que ela produz e outros fazeres artísticos. Quem mais poderia ouvir do premiadíssimo pintor e desenhista cearense, Aldemir Martins, de quem foi discípula por 12 anos: “Você vai ser herdeira do meu saber”? Para essa paranaense de 41 anos, nascida em Guaíra, residente em São Paulo desde 1986, fazer arte é semelhante a respirar, ao pulsar do coração. Intensa, além da aplicação de técnicas, ela se atira de corpo e alma, sem rede de proteção, como a mais ousada trapezista. “Não estou presa a nada. Sou livre no meu trabalho. Não tenho de agradar ninguém. Só tenho de agradar a mim mesma. Desculpe-me por eu ser tão verdadeira.”

Ao falar da instalação Vila das Oyas, projeto vencedor do II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, da Fundação Cultural Palmares, sua exposição de 52 cerâmicas, que ocupou por um mês a paulistana Fibra Galeria e deverá viajar por outros estados do País, seus olhos se enchem de lágrimas: “Me emociono ao me lembrar dos cupinzeiros de minha infância. Me vem à mente a casa de chão batido, de dois cômodos, em que vivia minha família, na Vila Guarani, em Guaíra, cercada por um pasto repleto de cupinzeiros. Um abacateiro era a única árvore que se sobressaía naquele cenário”, explica.

Seja no sertão brasileiro ou nas savanas africanas, os cupinzeiros lembram a própria resistência do ser humano. Construídos com terra e a saliva dos cupins, eles ganham formas e dimensões inimagináveis, além de uma dureza que os torna indestrutíveis. Com o aporte de Bárbara de Paula, Lídia produziu esse projeto com base na lenda do orixá Oya – também chamada de Iansã – que comanda os ventos e as tempestades, esposa de Ogum e depois de Xangô. Diz a lenda que ela se transformava em búfalo e, quando voltava à forma feminina, escondia sua pele e seus chifres em um cupinzeiro.

No projeto, as autoras homenageiam as mulheres, em particular as mulheres negras, provedoras de suas famílias, às quais protegem em fortalezas invisíveis, mas indestrutíveis como os cupinzeiros. Na instalação, os cupinzeiros de cerâmica, em formatos arredondados femininos, são colocados de maneira a lembrar vilarejos ou aldeias. “Eu própria, como minha mãe, sou uma dessas Oyas – afirma Lídia – Vivo de meu trabalho e, mãe solteira desde os 13 anos, criei sozinha minha filha, a atriz Lidi Lisboa (Lidiane Rafaela Lisboa) – a Gracinha da novela Cheias de Charme, da Rede Globo – uma guerreira como eu.” Desde 1995, Lídia Lisboa produz peças de cerâmica e decidiu resgatar os cupinzeiros, recriando-os em vários formatos e tamanhos, alguns fálicos, outros mais arredondados como os seios femininos ou a barriga de uma grávida. “O primeiro que fiz, tem 80 centímetros e está na casa de uma amiga, protegido por uma caixa de vidro”, comenta emocionada. Mais velha de cinco irmãos, ela se lembra de que foram crianças criadas livres. “Aos seis anos, fiz minha primeira instalação: forrei a cama de campanha de meu tio Paizinho, com folhas de feijão guandu – conta a artista. Ele ficou super intrigado e disse à minha mãe que cuidasse de mim, porque eu não era desse mundo. Anos depois, visitou meu apartamento em São Paulo, e desabafou: ‘Agora entendi quem era aquela menina. Era uma artista’. Fiquei super feliz por ele finalmente ter entendido.”

Seu método de trabalho é muito particular, como explica ao falar sobre as cerâmicas da exposição, criadas em cinco meses: “Não faço nenhum estudo anterior. A peça vai nascendo enquanto é produzida. Vira quase uma obsessão. Simplesmente realizo o que idealizo. Farei cupinzeiros até morrer. Terão outras formas, talvez outras misturas de barros. A próxima série será inspirada na Capadócia, que lembra muito cupinzeiros. Quero também me inspirar no mito da Medeia. Hoje estou criando casulos de filó.”.

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