Cabeleireiro dá aulas nos presídios há 10 anos e pode ser o ganhador do prêmio mais importante da Justiça brasileira

Foto: Acervo pessoa

Oliver Pereira, “o mago dos cabelos”, é um dos símbolos do Centro Histórico desde meados dos anos 1990, época em que o Olodum começou a cantar que “o Pelourinho não é mais aquele / Olha a cara dele”.

Sim, ninguém há de negar que uma das caras mais conhecidas do Pelourinho de cara nova era (e ainda é) a do cabeleireiro com sua cabeça coberta por continhas coloridas que disputavam com a paisagem, tete-a-tete, os cliques ávidos de baianos e turistas.

Disputavam (não mais disputam) porque já há algum tempo Oliver, embora não deixe de ser muito reconhecido (figurinha carimbada), trocou o visual famoso por um tipo mais austero. E tudo isso para servir a uma causa bastante nobre.

“Quando comecei a desenvolver o trabalho nos presídios, dando aulas aos detentos, eu decidi tirar as continhas, para não sofrer nenhuma retaliação… embora nunca tenha acontecido. Achei que era melhor assim e estou me sentindo bem também”, disse ele, em entrevista ao bahia.ba.

Porém, como as pessoas sentem falta da cabeleira colorida, que eram como um cartão-postal orgânico e móvel da cidade, o mago anuncia a volta dos que não foram: “O pessoal tá pedindo muito, então eu vou voltar, com uma nova miçanga, show de bola, muito bonitas, e darei esse novo visual para a cidade de Salvador, a Bahia e também para o mundo. Vem visual novo aí!”.

Mas voltemos ao motivo da mudança: Há 10 anos, o cabeleireiro famoso decidiu apostar no potencial humano e iniciou um projeto, um sonho: ensinar a profissão a encarcerados, tanto nos presídios masculinos quanto nos femininos, na capital e no interior.

E, graças ao desenvolvimento do trabalho, que já gerou diversos frutos (sete dos seus alunos já têm seus próprios salões de beleza), provando que a fé não é vã, Oliver Pereira foi indicado ao “Prêmio Innovare 2017” – iniciativa do Ministério da Justiça e do Instituto Innovare que destaca ações que contribuam para o aprimoramento da Justiça no Brasil e que este ano estendeu seu alcance ao Sistema Penitenciário.

“Quando eu era pequeno, uma tia me disse que eu ia dar pra ladrão e minha irmã para prostituta. Fui amaldiçoado pela minha própria família, mas venci. Hoje eu dou aula nos presídios! Olha o contraste”, destaca ele, emocionado, ao lembrar da própria história, que poderia ter se confundido com a de seus assistidos e lhe estimula à solidariedade.

Nascido no bairro da Liberdade, ele aprendeu a cortar cabelo aos 8 anos de idade, tendo seu próprio tio como cobaia. Dali seguiu ao Centro Histórico, trabalhando em pleno Largo do Pelourinho, onde se destacou graças não apenas ao próprio visual, mas também pela sua habilidade com a navalha – fazendo desenhos transados e ousados nas cabeças dos clientes.

A especialidade do esteticista, porém, que hoje tem seu salão na Rua Frei Vicente, n° 4, ao lado da Casa do Olodum, não são os desenhos, e sim corte, escova, relaxamento e coloração.

Ele, que já fez palestras e workshops para empresas e participações em diversos camarotes no carnaval, fala sobre o momento em que recebeu a notícia da indicação ao Innovare 2017.

“Eu fiquei anestesiado, na verdade. Quando o telefone tocou, aquele número estranho, eu quase não atendi, achei que era cobrança (risos). Para mim é muito importante esse reconhecimento, vindo da minha própria terra, além de ter a relevância também de representar Salvador e a Bahia também nesse patamar”, disse.

O maior prêmio, no entanto, ele destaca, é o próprio trabalho desenvolvido: “Na verdade, para mim ensinar é como se fosse uma fonte – quanto mais você tira água dela, mais ela se renova… E eu tenho me renovado a cada dia com esse projeto”, declara, antes de relembrar a motivação para o início, que veio da “necessidade das pessoas de ter uma profissão”.

“Isso é muito importante, eu já trabalho há 33 anos e não sei o que seria de mim sem uma especialidade, então resolvi passar esse conhecimento a quem precisa”, salienta.

Oliver diz ainda que tomou a ousadia de propor as oficinas à direção prisional e que foi bem atendido, o que facilitou o processo: “Fui até o coronel Paulo César, na época, e ele me encaminhou ao primeiro presídio, em Juazeiro, onde realizei um desfile de moda. Depois segui para outras unidades, a Lemos de Brito, o Presídio de Eunápolis etc”.

Além de ensinar a cortar, o manuseio da tesoura, das navalhas e máquinas elétricas, Oliver aproveita o encontro para conversar, passar algo (ou muito) de sua experiência de vida aos alunos, a quem também gosta de ouvir.

Nessas horas, em que certamente também aprende bastante, o cabeleireiro entende que fazer a cabeça das pessoas é uma questão de intimidade, de acolhimento e doação.

Enquanto o visual novo, que ele prometeu para breve, não vem, ele segue renovando e, literalmente, dando uma cara nova aos presídios baianos, como já fez com o Largo do Pelourinho, onde os escravos eram castigados, com gestos simples mas de grande complexidade.

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