Saiba mais sobre a história e a carreira do ator Thogun

 

TEXTO: André Rezende | FOTO: ENRIQUE_RODRIGO / W. CLEMENTE / STILL ESTEVAM AVELLAR / DIVULGAÇÃO | Adaptação web: David Pereira

O ator Thogun | FOTO: ENRIQUE_RODRIGO / W. CLEMENTE / STILL ESTEVAM AVELLAR / DIVULGAÇÃO

O ator Thogun | FOTO: ENRIQUE_RODRIGO / W. CLEMENTE / STILL ESTEVAM AVELLAR / DIVULGAÇÃO

Anos atrás, em Cavalcanti, no extremo da zona norte do Rio de Janeiro, havia um menino de nome Sérgio André Teixeira, logo rebatizado como Thogun (por causa de seu orixá). Na comunidade, também havia uma boca de fumo a 50 metros de sua casa, caminho obrigatório para se chegar à escola. Para Thogun – pobre e negro – a proximidade com o tráfico de drogas acenava como um destino comum para muitas crianças e jovens de famílias humildes. Mas ali em Cavalcanti, havia, ainda, uma mulher sergipana, forte e guerreira, de nome Euniceá, que tratou logo de mudar a história do filho mais velho, Thogun, e de seus dois irmãos caçulas.

Mais que mãe, ela era também o pai, trabalhava em dois empregos e cantava no coral de uma renomada escola para segurar uma bolsa de estudo – foi a primeira mulher da família a se formar na faculdade. Com os filhos, usou e abusou da educação e da cultura para formá-los para a vida. Castigo com ela era na base da leitura. Errou? Vai ler Machado de Assis, Guimarães Rosa, Manoel Bandeira... E o menino Thogun cresceu assim, trabalhando (desde os 9 anos), direcionado, focado nos estudos e cuidando dos irmãos mais novos enquanto Dona Euniceá encarava os dois empregos – de dia como agente-administrativo, à noite, como enfermeira –, e claro, ainda tinha tempo para preparar os filhos para as tristezas e alegrias da vida, mas sem nenhuma super proteção.

Thogun conheceu os dois lados – esbarra com eles até hoje – mas está sempre atento a lembrar de sua base sólida, de sua força maior: a mãe. “Foi a minha melhor amiga, a pessoa que me formou para eu passar por tudo isso”, fala o hoje ator Thogun que já participou de mais de 24 longas-metragens. Também fez novelas, seriados, teatro, locução, dublagem... Mas é na telona que ele se realiza de verdade. “Namorava bilheteira para não perder a sessão de cinema. Às vezes até duas, três ao mesmo tempo.”, lembra. “Três sessões?”, pergunto. “Não, três bilheteiras.” (risos)

A vida e o lado social levaram Thogun para o rap (20 anos de militância no movimento hip hop, com letras pensantes, consequência direta das incursões literárias colocadas pela mãe). Por sua vez, o rap o levou ao cinema em 2004 por meio do documentário Fala Tu, de Guilherme Coelho, em que contou sua própria vida e, com ele, rodou o Brasil ministrando palestras de cunho social e sobre a cultura hip hop. A obra já foi exibida em 17 países e continua vendendo na grade de uma distribuidora. “Só fala da vida das pessoas, é impressionante como continua atual. Ali eu vi o quanto a minha vida era forte e que poderia ser referência para alguém.”

Nessa vitrine, o diretor Cao Hambuguer percebeu que aquele negro grande e forte seria perfeito para o papel de Nilo na série de sucesso Filhos do Carnaval. Em duas temporadas, o filho da Dona Euniceá foi bebendo da fonte de feras como Jece Valadão, Walmor Chagas, Enrique Diaz e Jorge Coutinho, observando cada brecha de aprendizado que se abria para ele. E foi assim também em outros trabalhos (Tropa de Elite 1 e 2, Cidade dos Homens, Plastic City, Quanto Dura o Amor, Verônica, Proibido Fumar, Bruna Surfistinha, Giovanni Improta, Colegas, A Montanha (coprodução Brasil, Itália e Portugal), O Palhaço, Dois Coelhos... só para ficar no cinema), e com outros ícones (Milton Gonçalves, Lima Duarte, Fernanda Montenegro e os internacionais Sérgio Rubini, Richard Sammel e Ivo Canelas).

O ator teceu relações, se lançou no mercado sem medo de ser feliz. “A gente tem que viver intensamente, não existe essa de viver pela metade.” Durante muito tempo, o ator negro, grande e gordo ficou rotulado com papéis de marginal, ou aquele cara que enchia a tela em elencos de apoio ou figuração. Em todas as oportunidades, porém, se fazia notar – por menor que fosse a cena – e perceber a importância de sua presença em um set. “Nunca tive problema com tamanho de personagem. Trabalho é trabalho e, em cada um, você tem que fazer diferente, dar o seu melhor, não importa se você tem apenas 15 segundos”, ensina. Thogun criou a sua própria sorte, usando todo o conteúdo e conhecimento que adquiriu com a mãe.

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