Hijab e ebaia são a marca primeira das mulheres sudanesas. Enquanto, no Brasil, os cabelos e contornos surgem ao ar livre, no Sudão, seguem cobertos pelos mais finos e fashion tecidos que o mundo árabe oferece.Mulheres de todas as idades, tons de pele e condições sociais estão diariamente envolvidas em vestidos longos, e hijab (véu em árabe).
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Muçulmanos informaram-me que o corpo – sem exceção do cabelo –, segundo o Islamismo, é algo que deve ser preservado da vista pública, por uma questão de honra.

Encontrei mulheres lindíssimas, das quais tudo o que estava descoberto eram suas características fenotípicas como olhos, lábios, nariz, dentes e sobrancelhas. Algumas sudanesas próximas mostraram-me que, debaixo dos panos, existia também uma mulher com alguns hábitos de vestuário ocidental.

E os sudaneses? Esses usavam até bermudas e camisetas regatas! Entendi, então, que o corpo ao qual se deveria proteger de forma mais atenciosa, na prática, era o da mulher; mas não o do homem. As figuras masculinas – viris e protetoras – tinham outro tipo de tratamento, ainda que também se vestissem de forma tradicional.

Com o propósito de estudar a língua árabe, matriculei-me na Universidade da África, de orientação Islâmica. Nessa ocasião, fui questionada por pessoas próximas, sobre a maneira como conseguiria me adaptar às regras tão estritas de vestimenta. Confesso que não foi fácil. Sobrepondo-se ao meu estilo brasileiro de vestir, estava o véu e o vestido preto obrigatórios para o acesso à universidade. Foi, talvez, uma das mais significativas experiências de vida em um mundo onde a intolerância religiosa coexiste. Mas nada melhor do que conhecer o que muitos chamam de “outro”.

De fato, briguei muito com o véu, mas só com ele; e, apesar de o pano não segurar no cabelo, da temperatura de 48 graus de Khartoum (capital do Sudão) e da poeira irritante nos olhos, fui muito bem recepcionada pelas muçulmanas.

No segundo dia de aula, ao ver a minha inexperiência com o hijab, minha professora doou-me um pacote de alfinetes e mostrou-me como amarrá-lo corretamente. Solidariedade e cuidado evidentes.

Fui também apresentada às iniciativas desenvolvidas para alcançar igualdade de gênero no Sudão, cuja mola mestra é a União Geral de Mulheres Sudanesas (SWGU), fundada em 1990; e que luta pela legitimidade da mulher na sociedade, uma vez que representam 50% da população.

Não foi à toa que essas mulheres de véu garantiram 25% dos assentos do parlamento sudanês para a bancada feminina. Quando deixei Khartoum, em 2014, lutavam por 50% das vagas; e já apoiavam candidaturas femininas a cargos majoritários.

Desta maneira, a SWGU tem trabalhado para garantir ambiente saudável para as mulheres e comunidades com justiça social, econômica e direitos humanos.

Concluí, então, que os tecidos até escondiam a silhueta e os cabelos; mas não a alma, a solidariedade e a luta das sudanesas em prol da igualdade. Tudo isto estava por detrás do véu.

20170321_103200Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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