Uma das necessidades básicas de todo ser humano é a de alimentar-se. No Brasil adotamos hábitos etnicamente plurais e tácitos. Por isso, não questionamos a razão pela qual a maioria da população senta-se em volta da mesa; ou por que faz uso de talheres.

De onde vieram e por que alguns costumes prevaleceram em detrimento de outros nesta nossa mistura multicultural?

COMER COM AS MÃOSAo chegar pela primeira vez em solo africano, registrei que, ainda que tenhamos ascendência africana, ao nos alimentarmos, não utilizamos as mãos nem com a mesma frequência, nem com o mesmo significado que os habitantes desse continente.

Ao ser convidada para almoçar em um shopping, quando lá cheguei não havia talheres. Colheres no máximo! Frango com as mãos seria tranquilo; mas arroz quente? Pedi uma colher, para me auxiliar. Sorri junto com o anfitrião africano, apesar de o riso ser por motivos diferentes. Eu, sem saber como comer o arroz quente com a mão; e ele, divertindo-se com o que via. Se fosse feijoada, faria bolinhos com as mãos, como aprendi com minha família.

No Brasil, parece-me não ser comum comer com as mãos nem em casa, nem em restaurante. Ao ver africanos – de todas as classes sociais –  comendo diariamente sem talheres, apesar de terem o domínio dos mesmos, comecei a fazer um paralelo com a realidade brasileira.

A etiqueta e os costumes europeus trazidos pela colonização determinaram nossos hábitos de comportamento à mesa; e fazem com que muitos brasileiros sintam-se superiores por fazerem uso dos tais utensílios; e até achem feio, primitivo, deselegante e vergonhoso comer com as mãos. Já presenciei alguns compatriotas negarem-se a comer com as mãos quando convidados por africanos. Preciosismo discriminatório.

Concluí que o hábito africano é melhor, pois você pode controlar padrões de limpeza e higiene pessoal, já que, em lugares tropicais do mundo, ao comer com o mesmo garfo ou faca usada por um desconhecido – e sem qualquer segurança a respeito dos padrões de vigilância sanitária –, estará sujeito a contrair doenças de tipos variados, a exemplo das causadas pela bactéria H. Pylori.

Em países africanos, o cliente antes de se alimentar é abordado por um funcionário, que traz bacia, sabonete líquido e toalha (pano ou papel) para higienizar as mãos, enquanto se está à mesa. O que não exclui a possibilidade de utilização do toilette. Os africanos utilizam a mão esquerda para servir comida no prato; e a direita será apenas para levar o alimento à boca.

Um dia desses, da janela de casa, vi vigilantes lavando as mãos na presença uns dos outros; e comendo na mesma bandeja. No Brasil, é comum ver cena semelhante em cerimônias religiosas, mas não é hábito do povo. O ocidentalismo é originalmente fundamentado no individualismo, enquanto que as sociedades africanas têm o conceito do viver em comunidade como fator primordial do relacionamento diário tribal.

Aprendi a comer à africana, pois, afinal, julgar sem conhecer será sempre preconceito!

jamile cerqueira

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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