O colunista Fábio Rogério escreve sobre um projeto de lei que visa diminuir a violência policial. Confira

 

TEXTO: Fábio Rogério | FOTO: Cláudio Lira | Adaptação web: David Pereira

O colunista Fábio Rogério | FOTO: Cláudio

O colunista Fábio Rogério | FOTO: Cláudio

O tema do mês é o mesmo de quando o rap começou a engatinhar no Brasil, no fim dos anos 1980. Quando ouvi “Racistas otários”, do Racionais, refleti sobre a discriminação policial sofrida por integrantes da cultura hip hop. Infelizmente os racistas não nos deixam em paz, eles estão sempre por aí. Como diz uma frase que vi na internet, “faça o bem, pois o mundo vai mal”. Muito me entristece que piadas maldosas ainda façam parte de roda de conversas de pessoas com mentalidade escravocrata. O racismo existe porque muito se pensa em interesses próprios. A juventude negra continua sendo alvo da errônea afirmação: “parados somos suspeitos e correndo somos ladrões”. O genocídio continua.

Nas ruas, a infelicidade por parte de alguns militares, talvez fruto do sistema para qual trabalham, faz os mesmos buscarem problemas onde não existe, onde pessoas são felizes. Como membro da 105 FM, dos programas Espaço e Balanço Rap, estou junto com a rádio e demais companheiros de microfone, lutando para que o projeto de lei sobre o fim dos autos de resistência seguidos de morte não seja esquecido. Com a sua aprovação, a luta apenas estará começando, pois além da lei, todos os envolvidos precisam reforçar bons vínculos com as comunidades.

A lei que está em trâmite no Congresso nada mais é do que um basta à impunidade. A justiça não pode ser brecada por patentes. Na verdade, o que queremos e buscamos são novas formas de relacionamento com quem vive às margens da sociedade. Creio que o fim da violência policial aconteça quando na grade curricular do ensino brasileiro a esquecida lei 10.639, que visa o entendimento da rica, louvável e inspiradora cultura africana, seja compreendida de fato. Ainda há quem não perceba, mas educação - sem omissões que privilegiam a classe branca - é a base para melhorarmos como sociedade.

Entendo que a abordagem policial requer rigor, mas também necessita de diálogo. Boa conversa, disciplina e inteligência geram integração e uma relação mais sinérgica. Diante de tanta coisa inexplicável que vemos acontecendo, todos nós vamos ficando cansados. Cada vez mais precisamos estar unidos e temos que lutar por justiça. Não podemos ser indiferentes, porque se ficarmos parados, só recebendo as notícias ruins todos os dias, não seremos exemplo aos mais jovens. E quem mais sofre, por tabela, é a juventude, a negra principalmente. Reforço: não podemos ser indiferentes com a vida!

Em São Paulo, parece que há um distanciamento entre povo e polícia. A violência nos bate à porta, não podemos mais deixar de apurar ocorrências que geram mortes. Lembrem-se da canção “Homem na estrada”, do Racionais. Questionem: por que o negro é o primeiro a ter a sua liberdade privada?

A televisão mostra até onde vai a maldade humana, com programas sensacionalistas. Controle sua curiosidade em querer conhecer o mal, pois isso gera revolta. Proteja-se, peça proteção e mentalize o bem. Volto a dizer: os autos de resistência só serão um sucesso quando educação e respeito estiverem lado a lado. E quando eu falo em respeito, me refiro ao não vandalismo e à valorização do caráter. Como questiona o rapper GOG, “O amor venceu a guerra”? Não, infelizmente ainda não. E uma das coisas legais do rap é reconhecer que, às vezes, não conseguimos dominar a nossa própria consciência. Pensar assim nos leva a reflexões, e reflexões nos levam a evoluir. Eu acredito em vida após a morte, mas acho justo que todos vivam de forma plena aqui, onde estamos agora. A vida é um presente de Deus, temos que aproveitar com sabedoria e amor.

 

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