Quando o estudioso judeu Joseph Halevy decidiu conhecer um grupo de falashas pessoalmente, na Etiópia, ainda no século XIX, foi recebido com curiosidade e desconfiança pelos nativos, que questionavam: “O senhor, judeu? Como pode ser judeu? O senhor é branco”. O grupo, que se autodenomina como “Beta Israel” — o termo falasha é pejorativo e significa “exilado” ou “estranho” — vem seguindo os preceitos da Torá desde os tempos antigos, de maneira um tanto desprendida.

Por quase 3 mil anos, os judeus negros da Etiópia, mantiveram sua fé e identidade — eles falam hebraico e guardam o Shabat — lutando contra a fome, a seca e as guerras tribais. Acredita-se que eles faziam parte de uma das dez tribos perdidas e seus ancestrais remontariam ao rei Salomão e à rainha de Sheba (Sabá). E apenas em 1975, foram reconhecidos pelo Estado de Israel como descendentes das tribos perdidas.

No início, a emigração era tímida, mas a instabilidade política do país, e especialmente a grande fome de 1984 e 1985, obrigou os falashas ao exílio. Primeiro em campos de refugiados no Sudão. Depois, de novembro de 1984 e janeiro de 1985, com ajuda do serviço secreto israelense, o Mossad, e em conjunto com a CIA, que organizaram um primeiro transporte aéreo. Apelidada de Operação Moisés, ela permitiu a evacuação de 7.700 etíopes. O restante adoeceu na viagem e muitos voltaram à Etiópia. Famílias acabaram separadas.

A maior operação do tipo só aconteceu em maio de 1991, durante uma brutal guerra civil na Etiópia, quando 14.200 falashas foram transportados de avião para Jerusalém pelas Forças de Defesa de Israel. A medida — idealizada e organizada pelo então embaixador de Israel na Etiópia, Asher Naim — durou 25 horas. A Operação Salomão foi narrada em livro (“Saving the lost tribe”, “Salvando a tribo perdida”) por Naim: no total, 14.200 emigrantes foram levados para o aeroporto Ben-Gurion, em Tel Aviv. Trinta e cinco aviões militares e civis fizeram 41 voos. Um dos Jumbos, que normalmente poderia levar 500 passageiros, transportou de uma só vez 1.087 pessoas, num feito digno do Guinness Book.

Mas grande parte deles nunca havia tido contato com uma civilização aos moldes ocidentais e eram membros de tribos. Muitos nunca haviam sentado em uma cadeira ou sequer calçado um sapato. O que fez com que a adaptação fosse difícil. Hoje, aproximadamente 90% dos etíopes judeus vivem em Israel: a comunidade reúne 135.500 pessoas — destes, mais de 50 mil nasceram no país. Mas, vítimas de racismo, muitos são excluídos do processo de integração. Segundo a Associação Israel para os judeus etíopes, o rendimento médio per capita é 40% menor do que a média. Mais de um terço das famílias (38,5%) vivem abaixo da linha de pobreza.

Fonte: O Globo

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