TEXTO: Maricio Pestana/ FOTOS: Rafael Cusato

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Em sua opinião, em mais de 70 anos da Universidade de São Paulo, como tem sido a presença de negros na instituição, seja como alunos, professores ou como tema a ser estudado?
A USP é, sem dúvida, a melhor universidade pública do país, com cerca de 70 mil estudantes de graduação e pós-graduação. Tem por volta de cinco mil professores e mais de 30 unidades entre faculdades. Mas nesta grande Universidade de São Paulo o negro é quase invisível, seja como aluno ou professor. Entre os mais de 70 mil estudantes, o negro não chega a 10%, segundo estatísticas, mesmo sendo 25% da população do estado de São Paulo – e tenho dúvidas acerca dessas pesquisas sobre a nossa presença. Em minha experiência de mais de 30 anos na USP, sinceramente nunca tive na ala de graduação mais de cinco alunos negros. Na pós-graduação, um pouco mais. Mesmo assim, a representação é insignificante. E estamos falando na área de humanas, onde se diz ser menos nobre e os alunos têm mais facilidade de passar no vestibular. Você imagina, então, em medicina, odontologia... Praticamente a presença do negro é inexistente.

O senhor é um dos raros professores negros na USP. Como conseguiu?
Eu cheguei na Universidade de São Paulo em 1975, para fazer pós-graduação. Éramos os africanos, os únicos negros a fazer pós-graduação na USP. Não havia um único afro-brasileiro de verdade. Fui o primeiro negro em antropologia, o primeiro também a fazer doutorado em Sociologia. Essa situação não mudou muito. Não chegamos a cinco professores negros nos dias de hoje, se juntarmos os assumidos e não assumidos, chegaremos, talvez, a dez. Fui o primeiro professor negro na USP, porque quando o professor Milton Santos entrou, vindo da França, eu já me encontrava aqui.

E a USP tem consciência desse quadro?
Com certeza, porque foi aqui, na década de 60, que sociólogos como Florestan Fernandes, Roge Batist, o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso e tantos outros trabalharam a questão racial e chegaram à conclusão de que a democracia racial era um mito, que o negro tem dificuldades na sua ascensão social no Brasil. Mesmo quando tem formação acadêmica, ele encontra barreiras, raciais e não econômicas como se dizia até então. A universidade sabe disso!

Vários intelectuais, que estudaram essas questão neste período, mudaram suas posições e hoje, por exemplo, são contrários às cotas raciais. Como o senhor analisa essa situação?
É uma pergunta que também me faço. Em certos mo­mentos, as pessoas chamadas socialistas, que até denun­ciaram na academia o mito de democracia racial brasi­leira – digo na academia porque nos anos 30, a Frente Negra Brasileira já havia denunciado que a democracia racial brasileira era um mito.
Então, alguns desses intelectuais que nós conside­rávamos companheiros de luta, quando chegou a hora do vamos mudar com as cotas, mudaram de posição, defendendo o mito da democracia racial e ressuscitaram as ideias de Gilberto Freire, do ideário de um país de mestiços sem proble­mas raciais, e que política de ações afirmativas seria uma política importada que nada tem a ver com a realidade brasileira. Isso nos surpreendeu, porque era aquele momento em que mais precis­sávamos contar com aquelas pessoas.
A USP não chegou a discutir o projeto, a ques­tão das ações afirmativas e as cotas raciais, como foi feito em outras universidades. Consigo en­xergar esse fato somente como uma traição. Mas acredito que isso se deu porque eles sabiam que nós passaríamos a ser sujeito dos nossos destinos. Não seriamos mais objetos de suas pesquisas e sim seus concorrentes como pesquisadores.

Um dos argumentos dessa turma é o de que no Brasil, por conta da miscigenação, era difícil saber quem realmente é negro ou branco.
Mentira! É simples saber quem é negro no Brasil, pois existem os indisfarçáveis, que não dá para mentir que não são negros – é o meu caso e o seu. Há outros negros que são mestiços disfarçáveis e os mais claros. Alguns nem sabem se são negros ou brancos, então esses são disfarçáveis que precisam assumir sua ascendência africana. Todos os indicadores sociais e econômicos no Brasil apontam as pessoas de ascendência europeia como privilegiadas em nossa sociedade. Já os mestiços dis­farçáveis têm problema por causa da negritude que carregam. É só você pegar índices, por exemplo, de salários. Essas pessoas precisam assumir, na prática, para poderem, inclusive, se defenderem melhor do que o racismo realiza cotidianamente com todos.

Certa vez, o senhor declarou que “o racismo brasilei­ro era um crime perfeito”. Ainda acha isso?
Sim! Um crime perfeito porque ele faz da vítima o primeiro responsável da sua situação. O racismo bra­sileiro discrimina o negro por que, quando ele toma consciência, a culpa é dos próprios negros. Eles não só se assumem como têm complexo de inferioridade. Andam de cabeça baixa, não se manifestam, mas é o modelo de racismo que levou muitos negros a esse tipo de comportamento. Quando se diz que o negro discrimina o próprio negro, não é verdade! É o ra­cismo que faz com que ele tome determinadas atitudes contra seus próprios irmãos.

 Estados Unidos, Brasil e África do Sul. O que esses países têm de diferente na questão racial?
Nos Estados Unidos o racismo é aberto, foi influenciado pelas leis de segregações raciais, por isso teve suas consequências na dinâmica da própria vítima ser uma força, se conscientizar e mobilizar-se mais intensa e rapidamente.
O racismo brasileiro é muito implícito, contém sempre paternalismo. Tem muitas coisas que não são ditas, é acompanhado de silenciamento, também. Isso prejudica a identificação da ação, confunde as próprias vítimas e inibe a mobilização política para enfrentá-lo. Além do mais, o racismo é drenado, quanto mais você vai se branqueando, existe a sensação que ele vai diminuindo e como se travessássemos uma fronteira. No racismo americano não há essa linha em busca do fim do problema passando pelo branqueamento. Na África do Sul, criou-se um grupo em que os mestiços não pertencem nem ao negro, nem ao branco que defendia o apartheid. Eles também não podiam ultrapassar a fronteira.

No Brasil costuma-se dizer que, “quando se tem dinheiro, acaba o racismo”.
Quando você tem dinheiro aqui significa: acesso a uma boa saúde, uma boa educação e outras coisas que o dinheiro pode comprar, mas isso não quer dizer que você deixa de ser discriminado. Pode ser um milionário no Brasil, porém, se for negro, é diferente. Se eu e você fôssemos milionários e visitássemos a periferia de qualquer cidade brasileira, ninguém diria que éramos milionários, seríamos tratados como são tratados os negros na periferia, inclusive pela polícia. Você vai ser discriminado do mesmo jeito. Foi isso que aconteceu com o dentista Flavio, de Guarulhos, morto porque um cidadão branco disse que o assaltante que o havia roubado era negro. Ele não teve tempo de se explicar...

Então, somente a ascensão econômica não resolve o problema?
Essa coisa de pensar que o negro no Brasil, ascendendo economicamente, resolverá o problema racial é uma falácia. Em algumas situações até pioram as discriminações. Certa vez o amigo e professor, já falecido, Milton Santos foi ao Clube dos professores aqui na USP, acompanhado de professores estrangeiros da França e do Canadá. Quando chegou, veio um funcionário e pediu para ele mostrar a carteira de professor da USP. Os convidados dele – que não eram da USP – não precisaram. Ele, que “estava em casa”, parecia de fora, ou seja, mesmo com dinheiro e único do grupo professor da USP, considerado um dos maiores intelectuais do mundo, foi importunado, porque no Brasil que fala mais alto são a cor da nossa pele e a geografia do nosso corpo, do que qualquer outra coisa. O dinheiro pode ser um facilitador para uma boa educação para o seu filho, para você ter uma vida confortável, mas isso não resolve o problema do racismo.

E essa situação vai mudar?
O quadro vai mudar porque os países que consideramos os mais desenvolvidos são aqueles que deram uma boa educação e oportunidades para a sua população. Essa é a saída. Tanto nos países europeus como nos países emergentes da Ásia, você verá que isso foi determinante para sua ascensão.Se aqui no Brasil a população negra tivesse tido acesso à boa educação e a universidades de qualidade, nós teríamos uma elite, digamos, e essa invisibilidade nos lugares-chave de nossa sociedade mudaria, não seríamos sempre os únicos ou os primeiros em quase tudo aqui. Somente em São Paulo somos 25% da população, e somos sempre o primeiro, o segundo, o único ou nada. Isso só a educação pode mudar. Não vejo outro caminho.

 

A política de cotas universitárias?
Sim! Esses jovens precisam entrar nas universidades. As que implantaram políticas de cotas dizem que nesses oito anos estão aprovando mais negros, quantitativamente, que no século inteiro passado, proporcionalmente. Isso é uma grande mudança! Por isso a elite branca está lutando tanto contra as cotas. Ela não quer que a situação mude. Se mudar, perde os espaços que sempre foram destinados a ela nesta sociedade. Porém, este é um caminho sem volta! Isso vai acontecer em 20, 30, 50 anos se as universidades continuarem com as cotas e as outras aderirem a essas políticas.
O quadro vai mudar, assim como aconteceu nos Estados Unidos. Antes dos sistemas de cotas, a diferença em matéria de educação entre brancos e negros era de quase 50%. Com as cotas, foi reduzida para 10 %. Nos Estados Unidos você encontra negros nas grandes universidades, nas indústrias de ponta, na NASA e até na presidência da República. E lá os negros são somente 13% da população. Imagine aqui no Brasil, onde somos a metade da população?

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