“Todos nós viemos de algum lugar. Não há e não haverá uma cultura, sociedade, clã ou tribo que não tenha que reconhecer formalmente os seus antepassados e atribuir-lhes um papel na vida individual e coletiva de seus membros. Na verdade, parece que o reconhecimento de algum senso de conexão com os nossos antepassados é seminal e definidor da característica humana”. Essas palavras introduziam a carta convite para uma exposição em Washington – EUA, que recebi em setembro de 2013 e, a partir dali muitas questões sobre pertencimento, origem e ancestralidade circundam minha mente.

Ensaio da performance de abertura, 2016. Fotografia: Jalani Morgan para Supafrik. Toronto – CA.

Ensaio da performance de abertura, 2016.
Fotografia: Jalani Morgan para Supafrik. Toronto – CA.

No meio dessas provocações vinha a proposta de enviar para exposição uma fotografia da Coleção Kalakuta, criação que emergiu depois que li a biografia de Felakuti, escrita por Carlos Moore. Na coleção fiz uma homenagem às 27 mulheres que o acompanhavam e à sua imagem inovadora, que misturava referências de muitas comunidades tradicionais africanas com elementos cosmopolitas. Por meio desse trabalho eu intentava discutir a noção de origem e pertencimento em meio às camadas de identidades que vamos colecionando ao longo da nossa trajetória de vida.

A exposição foi uma ação de um museu em Washington, DC, situado num dos primeiros edifícios escolares públicos, erguido em 1872 para a educação da comunidade negra na cidade, marcando o estabelecimento de direitos iguais entre pessoas negras e brancas. Em meio ao impacto da beleza do convite e do contexto do evento, a exposição aconteceu sem o meu trabalho! Demorei a acreditar que uma imagem de editorial de moda seria exposta num museu, e com o curto prazo para envio da fotografia impressa e emoldurada, fiquei apenas com as reflexões... como foi que eu aprendi o conceito de arte e concordei em o distinguir duramente da minha experiência com moda? Que imagem de artista internalizei, a ponto de me excluir das possibilidades que me chegavam? Mais intrigante foi a pergunta final daquela carta: Você reivindica a sua própria ancestralidade?

Em 2016, passados três anos nessa busca, um convite semelhante surge e encontra em mim outro posicionamento crítico: a exposição “Water Carry Me Go” no Canadá, trazia como tema a Água, que nesse contexto aparece como um veículo para nossa dispersão, fonte das crenças, mitologias e como um tópico relevante em nossa identidade como diáspora negra. Anos depois, a provocação implantada pelo convite “perdido” se reencontra na criação da peça intitulada Yemonja, um vestido feito com 12 metros de organza cristal, tecido transparente como a água do mar, com uma saia recortada em pontas agudas que expressam sua qualidade Ogunté, simbolizando o impacto das fortes ondas nas pedras em dias de mar revolto. Desse fluxo contínuo e das aberturas dos caminhos mais complexos, surge a idéia do busto, composto por um colete trançado em forma de peixe. A peça, feita à mão pela designer Ju Fonseca, traz cordões de algodão natural, adornados com fios de seda em tons de azul e prata. As cordas simbolizam também a presença do Marujo, fazendo referência às personalidades ligadas à pesca e aos grupos responsáveis por iniciar as homenagens e festividades para a Rainha do Mar, Yemanjá, no bairro do Rio Vermelho, onde resido, em Salvador.

Dessa vez, entendi a importância de reverenciar a minha ancestralidade e junto a mais sete designers de países como Nigéria, Ghana, África do Sul, Trinidad & Tobago, Canadá e Uganda, deixei as “águas me levarem” e o evento aconteceu com abertura no Royal Ontario Museum e exposição no Toronto's Harbourfront Centre, sob curadoria de Chinedu Ukabam - Supafrik.  Como brasileira passo a compreender que para reivindicar nossa ancestralidade diante da história “oficial”, a qual não protagonizamos, vale pensar o que queremos ter como antepassados, analisar, no momento presente como cada hábito ou opinião se reproduz de maneira adestrada pelo racismo e pela intolerância religiosa, refletindo como a noção de ancestralidade pode contribuir para o nosso desenvolvimento como pessoas e para a reconstrução da noção de comunidade.

 

Carol Barreto Foto Helemozão 3CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

 

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