por MAURÍCIO PESTANA | fotos SOCORRO ARAÚJO

Resistência, persistência, defesa da tradição e da religiosidade, luta contra o racismo, enfim, é difícil sintetizar em uma só palavra o trabalho e a personalidade de Dalzira Maria Aparecida, ou simplesmente Iyagunã Dalzira. A mineira mudou-se ainda na infância com a família para o Paraná, e desde então vem sendo exemplo de superação no estado e em todo Brasil.

Yá, como é carinhosamente chamada, iniciou os estudos tardiamente, aos 49 anos, cursou superior em Relações Internacionais aos 63 e aos 72  defendeu seu mestrado: “Templo religioso, natureza e os avanços tecnológicos: os saberes do candomblé na contemporaneidade”, pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Sua força de vontade permitiu que pudesse realizar o grande sonho, mas, antes disso, ela cuidou e educou os oito sobrinhos que adotou da família da irmã, barbaramente assassinada. Só após a ida de todos à universidade, Yá se dedicou aos estudos. A história desta heroína, que seguramente daria um filme, foi apresentada em detalhes na entrevista para a Raça.

 

Por que sua família escolheu o Paraná?
O sonho de melhorar de vida plantando café movia grande parte das famílias há 60, 70 anos. É bom lembrar que boa parte da população vivia nos campos naquela época, e nós, negros, tínhamos saído da escravidão há poucas décadas. Boa parte dessas famílias negras tentou fazer o mesmo, mas era difícil dar certo. Chegamos ao Paraná, na cidade de Santa Mariana, em 1952, e ficamos em regime de meeiro, a gente arrendava a terra e parte do que produzíamos ia para os donos da propriedade. Era um emprego sem vínculo empregatício, recebíamos como diaristas. Ainda havia o preconceito, minha mãe era doméstica na casa dos donos do sítio e sempre diziam pra ela: “é de cor, é empregada”. Assim que eles pensavam.

 

Nesse contexto socioeconômico, qual era a posição social de vocês?
Nós trabalhávamos muito. Na infância, eu morava em um lugar que era praticamente um quilombo, só tinha uma família de brancos. Brincávamos juntos e não havia problema com a questão racial. Como eu não fui à escola até a idade adulta, não tinha noção do preconceito, embora meus pais sempre falassem: “Branco é branco e negro é negro, nunca se esqueça disso”.

 

Uma das coisas que chama a atenção na sua história é o contato com a educação. Como e quando foi alfabetizada?
Fui alfabetizada aos treze anos pelo meu pai, depois de tanto eu perturbar, de tanto brigar e pedir. Apesar de me ensinar, ele sempre foi contrário, dizia que mulher não precisava estudar, porque era o marido quem deveria sustentar a casa. A gente cresceu ouvindo isso. Mas eu sempre quis aprender, desde pequena eu queria ler as coisas. Meu pai comprou uma cartilha, e quando a gente chegava da roça ia estudar. Depois eu tive um manuscrito, sei ler muito bem por conta dele.

 

Como o candomblé surgiu na sua vida?
A religião já vem com a gente, só que o tempo todo a gente foge. Eu via imagens e falava para minha mãe, mas ela sempre desconversava. Eu via um homem de pé, morria de medo, chorava e chamava a minha mãe. Ela vinha em minha direção, passava por ele e não o via, então, pra não tomar bronca, eu falava que estava com dor de ouvido ou qualquer outra coisa. Ninguém entendia ou me explicava nada, ninguém via aquele homem e parecia que eu imaginava tudo aquilo. O tempo foi passando, até que, já na fase adulta, eu tinha apenas pesadelos. Enfim, minha mãe deve ter feito alguma reza para acalmar.

 

E qual foi o passo seguinte?
Nós morávamos do lado de um terreiro, não sei se era umbanda, candomblé ou quimbanda, e meu avô, um homem muito rude, xingava e desafiava o pai de santo. Por outro lado, a minha avó ia a este centro porque sempre tinha manifestações. A minha mãe tentava esconder da gente, mas eu conseguia ouvir e repetir tudo que a vó dizia. Já em Curitiba, decidi assistir a uma palestra com Babalorixás e Yalorixás, e um dos Babalorixás que falava da religião afro acabou sendo o meu pai de santo. Ele me apresentou um vídeo sobre o candomblé, e durante as cenas eu senti como se conhecesse tudo aquilo. Quando terminou o filme, estava profundamente tocada, foi um chamado.

 

Quantos anos a senhora tinha?
Eu estava com quase 40 anos. Fui para casa e não consegui dormir, passei várias noites em claro. Tinha medo porque a minha mãe já me falava desde a infância para não procurar a religião afro, só fui porque um amigo da capoeira, que era irmão do Babalorixá, me incentivou. O pai de santo conversou muito comigo e foi até engraçado, porque ele percebeu que eu estava morrendo de medo. Só fui reencontrá-lo 17 dias depois, em Campinas, quando preparava-se para o seu mestrado. Nessa ocasião, ele me levou de volta para a casa e disse: “Hoje você vai dormir”. A única coisa que ele fez foi me dar água, só que, depois de muitas noites sem dormir, finalmente consegui descansar. Dali em diante eu passei a acreditar em uma força maior e soube qual caminho seguir.

 

Fale sobre os estudos. A senhora acabou de fazer mestrado, não é?
Com 47 anos ingressei no EJA (Educação de Jovens e Adultos), levei uns dois anos e meio para concluir. Depois de um tempo sem estudar, minha filha me incentivou a fazer faculdade, assim como ela estava fazendo. Fui conhecer e achei o curso de Relações Internacionais interessante, porque certamente traria conhecimento sobre a história da América latina, que me interessava muito. Fiz um financiamento para pagar metade do curso, a outra metade seria paga depois que eu me formasse, mas com as desistências, surgiu a oportunidade de ir estudar à noite, com as mensalidades futuras abonadas, e foi o que eu fiz. Me formei em 2.008. Gosto muito de escrever, mas uma coisa é escrever textos tradicionais, outra é ter validade científica no que está sendo dito. Fui fazer mestrado pensando nisto, queria um estudo de valor científico. Foi difícil, porque eu não tinha bagagem para um mestrado. Um grande desafio realizado!

 

Como é a sua participação no movimento negro paranaense? Como a senhora vê a situação do negro no sul do país?
A gente está fazendo um esforço muito grande para que comecem a contar a nossa história nas escolas, no Brasil e no Paraná. Eu comecei com uma ansiedade muito grande em resolver questões, na adolescência já enfrentava muita dificuldade porque no interior o racismo é diferenciado, ele é falado, mostrado e sistematizado. Quando eu cheguei ao Paraná, em 1979, estava na igreja, era uma católica praticante, assim como a maior parte da minha família. Dentro da igreja tinha uma ex-freira chamada Conceição Felipe, ela me chamou para participar de um grupo do movimento negro que estavam formando na igreja, em plena ditadura. Aceitei, mas nas reuniões não podíamos ter mais que cinco pessoas, pois a polícia vigiava todo mundo. Mais de cinco pessoas era considerado motim contra o governo. E ali começou, na igreja, o único lugar que podíamos nos reunir.

 

Esse grupo era o Grupo União e Consciência Negra?
Eram muitas pessoas ligadas à igreja, muitos padres e freiras que queriam enfrentar o racismo, mesmo na época da ditadura. A gente fez a primeira assembleia em Brasília, em 1982, e nela foi definido o nome Grupo União e Consciência Negra. Começamos a estabelecer prioridades e agir. Meu pai tinha receio por causa da ditadura, achava perigoso de mais. Ele dizia que não sabia que teria uma filha que lhe daria tanto trabalho!

 

Qual foi a maior dificuldade da sua caminhada religiosa até aqui, Dalzira?
Temos uma liberdade vigiada. Eu tenho o alvará aqui do terreiro, mas tenho que preencher os requisitos. Quais são os requisitos? Nunca voltei à prefeitura para saber, mas está lá, qualquer queixa e eles cassam o alvará. Tem que registrar na Receita Federal. Fora isso, existem agressões, apedrejam o terreiro, quebram telhas, é bem difícil. A falta de espaço também incomoda, a urbanização vai inchando a cidade e os terreiros perdem ainda mais espaço. Podemos dizer que sofremos pressão de todos os lados, do vizinho ao sistema vigente na sociedade.

 

A senhora acha que outras religiões também sofrem com a modernidade?
É diferente. Aliás, a diferença começa pelo espaço físico: o terreiro não tem estacionamento, é fundo de quintal, divide espaço com a família da casa. Na igreja não é dessa forma, tem pátio, prédio, estacionamento e tudo mais. Aqui existe o risco do roubo de carros, que ficam na rua, a gente até paga para um vigia noturno cuidar da segurança. Somos obrigados a fazer o papel da prefeitura e do Estado para ter um pouco de sossego. Não podemos dizer para o orixá “vá embora porque precisamos fechar”. Estamos sempre sendo vigiados pelos vizinhos, às vezes eles chamam a prefeitura e apagam as luzes bem na hora do ritual, então somos obrigados a recorrer às velas. Nunca se sabe o que vem pela frente.

 

A senhora acredita que haja certa perseguição?
Sim, os olhares são preconceituosos, as mães falam para seus filhos uma série de coisas para amedrontá-los. Esse tipo de preconceito acaba nos servindo como uma injeção de coragem para seguir em frente.

 

Aos 72 anos, o que a vida te deu de melhor?
Tudo valeu a pena. Ter acreditado e investido na educação das crianças, depois na minha... Valeu a pena porque coloco a cabeça no travesseiro sabendo que sempre fui justa no que me propus a fazer. Tudo isso me trouxe paz. Muita gente se desespera porque está envelhecendo, mas eu sempre procurei estar psicologicamente preparada para a velhice, para não sofrer por ela. Acho que não houve um tempo em que não aproveitei a vida, aproveitar a vida é fazer as coisas que você quer e que gosta, e eu fiz o que desejei. Quando eu era católica, acreditava no que fazia depois que os caminhos mudaram e me levaram ao candomblé, um destino já traçado, encontrei a verdadeira paz.

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