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Saiba quem é e o que Pensa Epsy Campbell, primeira vice-presidente negra da América latina.

  • Autor: Mauricio Pestana

  • Publicado em: 02/04/2018

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Entrevista exclusiva para o jornalista Maurício Pestana à Revista RAÇA

A eleição de Carlos Alvarado para a presidência da Costa Rica marcou historicamente não só a política do país, mas de toda a América Latina: Epsy Alejandra Campbell Barr, uma das fundadoras do Partido Accion Cuidadana (PAC), será a primeira mulher negra a tornar-se o primeira vice-presidente do país em 8 de maio, dia da sua posse.

Presidente do Partido Ação Cidadã ela é uma das principais ativistas feministas e antirracistas da América Latina. Aos 54 anos, com formação em economia, a costa- riquenha Epsy Campbel preside o Partido Ação Cidadã (PAC), tendo sido eleita, em 2002, a quinta deputada negra da Assembléia Nacional de seu país. Em 2006, ficou a um ponto percentual de se tornar vice-presidenta da costa Rica e derrotar candidatos tradicionais da direita local. Epsy também foi dirigente até o ano de 2005 do centro de Mulheres Afro-Costarriquenses – organização que ajudou a construir na década de 1980. Em sua atuação internacional de combate ao racismo e ao sexismo, fundou o parlamento negro das Américas e presidiu a Rede de mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro- Caribenhas. Ela foi uma das principais representantes negras da América em um encontro, ocorrido em outubro, que reuniu dezenas de lideranças políticas, intelectuais e empresariais latino- americanas em Madri, na Espanha. Nesta entrevista, Epsy fala principalmente da importância da integração negra na América Latina.

A senhora é uma ativista política na Costa Rica, cujo trabalho sobre a questão racial tem reflexo em toda a América Latina e Caribe. A que se deve essa luta?
Sou uma afro-costarriquense de nascimento e este fato me estimulou sempre a reivindicar e impulsionar uma luta contra o racismo em meu país. Sou também uma ativista política muito atuante, sobretudo na luta contra o racismo e o sexismo, por isso tenho uma atuação muito grande no movimento de mulheres negras da Costa Rica e de toda a América Latina.

Como são as relações raciais em seu país?
Nada diferente do resto da América. Construímos nossa identidade a partir de uma raiz europeia-ocidental e, historicamente, rejeitando a presença negra em nossa história e na nossa vida cotidiana, excluindo e discriminando a população afro- descendente. Tem sido assim em toda América Latina e na Costa Rica não é diferente. Nossa diferença talvez seja o fato de termos construído um importante desenvolvimento humano, no qual a população negra alcançou um nível aceitável e parecido com alguns indicadores com o resto da população, embora a discriminação continue um tema presente. Por isso, eu e um grupo de amigas pensamos que era necessário iniciar um debate em âmbio nacional sobre a situação da população afro- descendente, sobre racismo, discriminação para questionar um pouco esta identidade européia que tentavam nos impor. Assim iniciei minha militância política como agente social dentro da universidade onde estudava. Logo, passei a ser dirigente do movimento estudantil e local, sempre com uma perspectiva afro e política para toda a população da Costa Rica, entendendo que somos uma população diaspórica afro-descendente e estamos em todos os lugares.

Vem daí essa consciência maior de afro-latinidade?
Sim! Senti que havia uma necessidade de construir uma identidade global e mais latino- americana com uma articulação que nos permitiria ter visibilidade em toda a região. O passo seguinte para a internacionalização foi praticamente automático vinculando-me primeiro, ao movimento das mulheres afro-latinas e caribenhas. Com o tempo, coordenei a Rede de Mulheres Afro da América Latina e Caribe passando para um movimento mais amplo em redes e organizações afro-descendentes e internacionais.

Conte sobre a experiência de fundar um partido em seu país, fato que a levou a disputar a vice-presidência da Costa Rica.
Sou parte de um processo político costarriquense. Tenho convicção de que a única possibilidade de transformar o estado é através do poder político. Embora economista, não acredito na lógica de que é preciso ter primeiro o poder econômico para depois ter o poder político. Isso vai nos retardar por toda a vida, uma vez que os recursos econômicos estão tremendamente mal distribuídos. Assim formamos um grupo de pessoas costarriquenses, não só afro-descendentes e no início do ano 2000, decidimos fundar um partido novo, que tivesse a possibilidade de uma ação e visão diferente da política, uma visão com o bem-comum de todos, com serviços, com um Estado eficiente que atenda a maioria e que não esteja pensando em atender às minorias privilegiadas economicamente que, tradicionalmente, têm ocupado o poder político e econômico há séculos em meu país. Um partido com visão de inclusão.

E como tem sido o desempenho desse partido?
Em 2002, nas primeiras eleições que participamos, obtivemos 25% dos votos, um avanço para um partido que acabara de nascer. Em 2005, fui conduzida à vice-presidenta do partido. Em 2006, fui então candidata à vice-presidência da República e estivemos muito perto de ganhar as eleições, foi coisa de um ponto. Só tivemos essa aceitação por ter um discurso próximo das pessoas e uma proposta realmente inclusiva, não só para nós afros, como para setores da sociedade que estavam excluídos e não tinham espaços políticos. A partir do desempenho político à frente desse partido, disputei as internas como pré-candidata presidencial para concorrer à presidência da República do meu país. Mas não tive êxito. O processo foi muito difícil, requeria muitos recursos econômicos e embora meu país seja pequeno, quando você está aspirando à presidência da República, de alguma maneira faz um questionamento estrutural e isso mexe com questões fortíssimas, delicadíssimas, sobretudo, no aspecto econômico. É muito difícil.

Como mudar esse paradigma?
Acreditando que a transformação real – a única que nos levará à cidadania plena e verdadeira – nasce da participação sistemática e séria na vida pública e no poder político. Temos que ter uma vocação maior de poder, não para nos governar única e exclusivamente, e sim para governarmos nossos países e isso só se faz quando pensamos do particular ao geral, do local ao nacional, e do nacional ao internacional. Nós, afro-descendentes, temos de ser capazes de conduzir nossa própria história, que seja transnacional, ser capazes de olhar nossas necessidades e as necessidades de outros povos que padecem dos mesmos problemas, seja em que parte for da nossa América Latina. Assim, podemos pôr em prática essa noção de poder como ferramenta de construção coletiva de sociedades onde todos tenham condições de ser felizes. Isso só pode ser feito na esfera do poder político. Por essa razão, acredito que temos que juntar esforços para estarmos participando em todas as estruturas do poder de nossos países.

Hoje, o Brasil é referência em políticas públicas na questão racial. Como a senhora analisa esse protagonismo?
Seu país tem um papel extraordinário na colocação do tema da igualdade racial na América Latina, existe uma relação interessante entre os movimentos sociais afros-descendentes e o governo brasileiro. Isso criou uma institucionalidade nacional e local a favor da igualdade racial e com grandes reflexos nos povos afro-descendentes na região. O Brasil tem nos ajudado muito com essa posição. Se hoje temos um espaço privilegiado dessa questão em âmbito internacional, não temos dúvidas que é pela forma com que o governo brasileiro tem se posicionou, principalmente, no período da Conferência Contra o Racismo, em Durban, na África do Sul. Após a conferência, encontramos muita gente comprometida com o tema, regional e internacionalmente. Pessoas que entenderam a importância do evento, cuja posição brasileira virou referência. Isso tem servido para que muitos países avancem em um tema que não se podia avançar.

A senhora passa uma imagem muito forte e segura. De onde vem essa força?
Eu sou uma mulher de religiosidade africana e espiritualidade afro-descendente, talvez minha força tenha a ver com essa concepção de mundo e de humanidade que acredito. Tenho religiosidade e isso é um direito que temos que reivindicar e que precisamos mostrar à nossa sociedade com orgulho e significado. Se conseguimos caminhar em tempos em que era impossível caminhar, como na época da escravidão, só sobrevivemos por conta da nossa religiosidade e da nossa fé. Foi essa capacidade de ter uma espiritualidade com raízes africanas que nos permitiu chegar aonde estamos. Acho que é isso que me fortalece e que temos que passar para os nossos irmãos.

 

Os negros da América Latina, somados aos 80 milhões de negros brasileiros, totalizam mais de 150 milhões de afro-descendentes. De que forma essa população pode ser integrada?
Primeiro, juntando os pares. Precisamos que os profissionais de comunicação se conheçam, saibam o que um e outro está fazendo em seu país, o que o pessoal da cultura está realizando, os acadêmicos estão estudando enfim, mapear todas as áreas de forma continental. E, quando digo uma rede continental, não é só uma típica rede que nós conhecemos, e sim numa proposta que leve em consideração que somamos mais de 150 milhões de pessoas. Somos a maioria e a mais importante da América Latina, não a minoria como sempre disseram. Estou convencida que estamos chegando a um tempo em que essa construção continental de afros-descendentes será uma realidade e em breve, poderemos chegar ao Brasil, Costa Rica, Colômbia, Honduras, Nicarágua e Uruguai, com a capacidade de nos entender como uma nação transnacional. É nessa construção que acredito.

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