Ouço uma voz feminina vindo da janela que dizia: Le courant est parti!(faltou luz em francês). Pronto. Começa a corrida do carvão!

Descartada a possibilidade de utilização do gerador, após 24h ligado, dirijo-me até o fim da rua para comprar uma pequena quantidade de carvão no valor de dois mil francos congoleses (uma média de 2 dólares), já que, a maioria dos fogões são elétricos. Retorno então para casa, a fim de continuar a preparação do almoço. Um dia destes, avistei uma família acendendo o braseiro com o saco que embalava o carvão. Prestei bem atenção e esperei o meu momento. E não é que minha hora chegou muito antes do que esperava? Exatamente quando não havia alguém por perto para me auxiliar…

Lá estou fazendo o montinho com pedaços de carvão, colocando no centro o tal saco plástico, esperando que o fogo pegasse. E pegou! Enquanto a energia retornava, o almoço era feito pelo poder do senhor carvão.

Na República Democrática do Congo, o poderoso mineral é um dos elementos mais utilizados no preparo dos alimentos, não tendo na churrasqueira um de seus destinos finais, como no Brasil. Encontramos essa realidade no interior das cidades brasileiras; ou nas áreas onde a pobreza é acentuada, mas não faz parte do dia a dia da maior parte de nossa população.

Já na República Democrática do Congo, o fluxo de caminhões lotados com grandes sacos de carvão é frequente. Viajam tão pesados que mal se equilibram nas quatro rodas.

Apesar da extensão de 4.500 km do Rio Congo e da existência no país da barragem Inga – projetada para ser a maior hidrelétrica do mundo - a ausência de energia elétrica é constante. A falta de luz é semanal. Os geradores são acionados com frequência, mas só estão presentes em alguns bairros. Funcionam com gasolina, mas não têm poder de gerar energia por 24 horas.

Alimentos vão para o lixo; pessoas trocam água quente por fria no momento do banho; as bombas não funcionam; e, assim, surgem os carregadores de galões de água para abastecer os apartamentos nos prédios. Além disso, existem os pacientes, de recém-nascidos a adultos, dependentes de aparelhos elétricos, que lutam pela sobrevivência nos leitos dos hospitais sem energia.

Pois bem, enquanto seguimos no dia a dia no Congo, usando o carvão para o preparo das refeições de toda população, acompanhamos a discussão mundial do Acordo de Paris sobre a dicotomia: efeito estufa x indústria do carvão. Países diferentes movimentam suas economias baseados na exploração desse mineral. E, no jogo de quem polui mais ou quem polui menos, o espaço geográfico comum, parece-me mais fácil ficar mesmo com o brasero.

Jamile Cerqueira

Publicitária e Mestre em gestão pela Southern Oregon University, Diretora do Projeto Femme Pour la Paix na República Democrática do Congo, ex-assessora do Embaixador do Sudão no Brasil, atuou na Cooperação para Assuntos em Tecnologia Social (Embaixada do Brasil em Khartoum), Foi assessora Internacional da Frente Parlamentar em Defesa dos Países Africanos.

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

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