Nas páginas pretas da revista Raça você confere uma entrevista com o sambista Ivo Meirelles

 

TEXTO: Maurício Pestana | FOTOS: Rafael Cusato | Adaptação web: David Pereira

 

Veja a entrevista da Raça com Ivo Meirelles

Veja a entrevista da Raça com Ivo Meirelles

No Carnaval de 2010, tornou-se presidente da Mangueira e produziu o primeiro videoclipe de um samba-enredo. O clipe foi exibido no Fantástico!, da Rede Globo. Em 2011, mais umainovação no Carnaval carioca: a escola prestou homenagem a um de seus ilustres personagens, Nelson Cavaquinho, com o samba-enredo “O filho fiel, sempre Mangueira”.Coube a Ivo ousar durante o desfile: a bateria – batizada de Surdo Um - fez o paradão militar de 1 minuto, e no ano seguinte, com o enredo em homenagem aos 50 anos dobloco Cacique de Ramos, o paradão da bateria subiu para três minutos. Em 2013, Ivo resolveu não fazer surpresa e anunciou que a Mangueira utilizaria duas baterias. “Foium trabalho árduo! Primeiro, tivemos que arregimentar mais 250 homens. Segundo, ensinar-lhes a tocar como Surdo Um, e terceiro explicar como deveriam ser feitasas trocas de pelotão”, conta o músico.

Mas não é só de carnaval que vive Ivo Meirelles. Há quase 20 anos, o cantor e compositor fundou o “ Funk 'n Lata”, grupo de pop music que utiliza elementos da black music,soul, hip-hop, funk carioca e rap, executados com instrumentos de carnaval, como repiques, surdos e chocalhos. Permaneceu na banda até 2001, quando resolveu trabalhar em um disco solo, o “Samba Soul”, com canções de samba-rock. Em 2013, apresentou-se pela quarta vez no Rock in Rio, ao lado de Elba Ramalho e Fernanda Abreu.

A contribuição de Ivo Meirelles para o samba brasileiro começou cedo. Em 1973, com apenas 11 anos de idade, fez seu primeiro desfile como integrante da bateria da Estação Primeira de Mangueira, uma das maiores escolas de samba do país. No carnaval de 1986, Ivo consagrou a Mangueira campeã, com um refrão de tirar o fôlego: "Tem chim-chim e acarajé", samba gravado pelo grande e saudoso Jamelão, a pedido do próprio Ivo.

Provando mais uma vez que não tem medo de arriscar, Ivo aceitou participar do reality show A Fazenda, da TV Record, em março de 2013. “Meu objetivo inicial ao aceitar o convite era mostrar quem eu era”, conta. Nesta entrevista concedida à Raça, o talentoso músico fala sobre a infância, carnaval e suas influências. Confira trechos da entrevista da Raça com Ivo Meirelles.

Você passeia pela MPB como poucos, vai do samba de raiz ao funk, hip hop e outros ritmos. Como é esse processo?

Meu gosto musical não tem limites e eu aprendi que música boa não tem rótulo. Funk, reggae, brega, sertanejo, o que eu gosto misturo à minha base que é o samba. Eu nasci e me criei nele, então busco transformar tudo que gosto, James Brown, Cazuza, Frejat, Fernanda Abreu, em samba.

"Existem grandes novos poetas que não chegam à nossa casa porque a música deles não vai para as rádios" | FOTO: Rafael Cusato

"Existem grandes novos poetas que não chegam à nossa casa porque a música deles não vai para as rádios" | FOTO: Rafael Cusato

 

O samba é muito forte e cultuado, especialmente o de raiz. Ao mesmo tempo, quando se fala em música brasileira, vivenciamos uma popularização do funk, que é uma febre nas periferias e também entre a classe média. Como você avalia o nosso cenário musical?

Eu vejo com uma certa tristeza. Esse culto nosso ao passado é justamente por conta das rádios não estarem tocando uma música de qualidade, elas hoje são reféns de produtos, projetos, conchavos e acordos. Aí a qualidade tende a ser menor. Quando você vai parauma roda de samba e escuta Nelson Cavaquinho, Cartola, Paulinho da Viola, João Nogueira, fica com saudade desses grandes autores de samba, porque poucos atuais têm espaço para nos fazer felizes, como Arlindo Cruz, Almir Guineto. Existem grandes novos poetasque não chegam à nossa casa porque a música deles não vai para as rádios, e o Brasil tem essa cultura de idolatrar o que toca no rádio. As rodas de samba pelo pais inteiro estão cada vez mais saudosistas com o passado porque é o que a gente tem na memória. Os poetasde hoje são ótimos, mas infelizmente não têm espaço.

O que mudou de “Tem chim-chim e acarajé” para o carnaval que se faz hoje?

Eu acho que mudou o romantismo, naquela época o “Tem chim-chim e acarajé” tocava norádio, você comprava disco de samba-enredo, você chorava quando escutava a música de suaescola de samba, e hoje não, hoje ninguém mais chora ouvindo samba-enredo. Acho quea paixão mudou, não sei se por conta da transmissão, por conta da globalização, ou se porcausa das escolhas erradas que nós enquanto dirigentes de escola de samba fizemos. Ninguém mais canta um samba do ano passado com a mão no coração, mas se for um sambade vinte anos atrás, aí sim.

O carnaval é essencialmente cultura negra, então por que não esta mais em nossas mãos, por que poucos são os negros que são presidentes de escola de samba?

É porque falta coragem aos negros, eu sofri vinte e cinco anos até ser presidente da Mangueira. Quando me tornei presidente sofri o pão que o diabo amassou. E eu nunca quis falar em discriminação, eu tenho uma frase que alguém dizia para mim, “quem reclama, já perdeu”, então eu não reclamava, mas senti na pele o que é ser negro, pobre e ser presidente de escola de samba. Eu acho que quando essa população toda que vive em comunidade de escola de samba, negra em sua maioria, tiver coragem de assumiruma postura politica de contestar o que está errado, quando pararem de aceitar submissão, as coisas começarão a melhorar, porque não tem ninguém para colocar um negro presidente de escola. Quem se coloca é você.

 

Quer ver essa e outras entrevistas e reportagens da revista? Compre essa edição número 185.

Comentários

Comentários